3 Poesias de Anna Akhmátova

Anna Akhmátova (1889-1966), expoente da Escola Acmeísta, sua obra se caracteriza pela "linguagem concisa, direta e despida de ornamentos, atingindo o leitor menos por aquilo que é dito do que por aquilo que deixa de estar lá." Poesia não se explica. É para ser sentida. E a leitura dessa Antologia Poética quase me deixa sem sentido, abismado. Isto também não se explica. Me resta apenas dizer que fiquei encantado. Segue alguns poemas:
Anna Akhmátova

VISITA NOTURNA

Todos partiram e ninguém voltou

Não é no asfalto, de folhas juncadas,
que tu terás de esperar,
mas é no adágio de Vivaldi
que ainda nos veremos.
De novo as velas ficarão pálidas
sob o encanto do sonho;
mas o arco do violino não te perguntará
como aqui entraste à meia-noite.
Estes instantes hão de fluir com um
mudo e fatal gemido.
Na palma da minha mão, então, lerás
os mesmo milagres
e, do fundo de ti, a tua angústia,
em teu destino convertida,
te afastará de minha porta,
rumo ao lago gelado.

10 a 13/9/1963
Komarôvo

TREZE VERSOS

E finalmente pronunciaste a palavra
não como quem se ajoelha,
mas como quem escapa da prisão
e vê o sagrado dossel das bétulas
através do arco-íris do pranto involuntário.
E à tua volta cantou o silêncio
e um sol muito puro clareou a escuridão
e o mundo por um instante transformou-se
e estranhamente mudou o sabor do vinho.
E até eu, que fora destinada
da palavra divina a ser a assassina,
calei-me, quase com devoção,
para poder prolongar esse instante abençoado.

1962

DE "AS ROSAS SILVESTRES FLORESCEM"

Tu me inventaste. Não há um ser assim,
e nem poderia um ser assim haver.
O médico não cura, o poeta não consola -
uma aparição te assombra dia e noite.
Nós nos encontramos num ano inacreditável
quando as forças do mundo se esgotavam;
tudo estava de luto, murcho pelo infortúnio
e só os túmulos mantinham-se frescos.
Sem as luzes da rua, o Nevá era um breu
e na espessa noite eu estava emparedada...
Foi então que a minha voz te chamou.
Por que ela o fez - ainda não entendo.
Mas vieste a mim, guiado pela estrela,
naquele outono trágico, entrando
naquela casa irremediavelmente arruinada,
de onde fugira um rebanho de versos calcinados.

18/8/1956
Starki


****Todos os poemas se encontram nesta Antologia Poética (L&PM POCKET), selecionados e traduzidos por Lauro Machado Coelho

Salve, Anna Akhmátova!

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