Um autor exigente



Ele diz que dá o melhor de si na composição de suas obras, porém, acredita que os leitores nem sempre dão o melhor de si em suas leituras. Exigente: assim é Evandro Affonso Ferreira. Não deseja milhares de leitores comuns. Para ele bastam 15 leitores geniais. Aqueles que tenham dissecado dez mil livros, donos de uma bagagem intelectual de dar inveja. Claro que sua assertiva carrega certo sarcasmo. Sua ironia se ri dos leitores desavisados. Vejo-o como um grande provocador. Incitando leitores mais refinados e repelindo a massa ledora de best-sellers.

Eu, que não sou nem uma coisa nem outra, li pouco para ser refinado (estou a anos-luz dos dez mil livros) e odeio os best-sellers do momento, me aventurei pela obra de Evandro Affonso Ferreira lendo seus contos de palavras sonoras, conhecendo suas particularidades. Em Grogotó! e Catrâmbias! encontrei a porta de entrada para sua literatura.  Mergulhando nesse universo de sonoridade me deparei com uma voz narrativa carregada de humor-irônico que nos causa certo estranhamento, digno da mais conceituada literatura.

Ao ler “Minha mãe se matou sem dizer adeus” (Record, 2010) e “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam” (Record, 2012) é possível notar a mudança na tônica da narrativa, embora apresente a mesma expressividade evidente nos outros livros. Em ambos romances ressoa uma dicção melancólica; com personagens que se assemelham. No primeiro, a decrepitude é o leitmotiv, no segundo o destrambelho causado pela ruptura amorosa. O velho a beira dos oitenta anos dialoga com o mendigo, ambos ostentam a máscara da erudição e, sob a pele, o desespero da insignificância, o derrotismo.

Duas obras distintas, que muito têm em comum. Uma verdadeira catalogação de perdas e naufrágios. Corpos que tombam; vidas que fenecem. Uma reflexão profunda sobre a existência; o autor não busca a redenção dos personagens, justamente por ser contrário a essa ideia redentora; a vida é falência. Falência do corpo. Falência do espírito. Falência social. Somos todos, um amontoado de seres falíveis, que, mais cedo ou mais tarde, sucumbirão à força motriz do mundo. “Miseráveis – somos todos miseráveis” é o mantra de “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”.

Segundo Vinicius Jatobá, colunista do Estadão, “Evandro Affonso Ferreira é um talento literário nato. Apenas a forma com que talha sua prosa faz com que ninguém saiba realmente disso: complicado, hermético, seu estilo impede que o leitor se aproxime da força emocional de seus personagens”. Eu, por minha vez, diria que seu estilo é entrave sim para o leitor superficial, o leitor fast-food. Sua literatura não tem nada de insosso. Ao contrário, tanto “Minha mãe se matou sem dizer adeus” quanto “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam” tem uma fluidez e dinâmica próprias, sendo, praticamente, impossível não se emocionar com a estória submersa nas entrelinhas. O que diferencia seus livros é justamente seu estilo. O autor lança mão de suas leituras, sofisticadas ao gosto comum, incorporando-as ao enredo, dando força narrativa e relevância aos personagens/narradores que são verdadeiros voyeurs, mantendo distância de tudo a sua volta e, ao mesmo tempo, absorvendo todos os movimentos e sensações dos que os rodeiam.


“Minha mãe se matou sem dizer adeus” é um livro que surpreende pelo título. Os leitores que vivem em suas redomas de perfeição já descartam de cara o livro pelo título, tão acostumados aos enlatados que vendem a felicidade em doses cavalares de motivação psico-religiosas. O livro, com certeza, não agradaria a estes leitores, porque ele traz uma carga emocional muito grande. Em nada se assemelha a esse mundinho de fantoches sorridentes. O que se vê nas entrelinhas é a crueza de sentimentos, uma existência arrastada de um personagem que não aprendeu nada com a vida e, tenta de todas as formas justificar a irrelevância de sua existência, apegando-se às lembranças de seus afetos para superar o medo da morte. Medo este, que se transfigura na imagem da mãe que se matou e nem sequer deixou um bilhete elíptico dizendo adeus.

Já em “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam” é, justamente, um bilhete elíptico escrito “Acabou-se; Adeus!” e a ruptura amorosa a causa do conflito psicológico que leva o personagem/narrador para as ruas onde passa a viver a esmo, como um náufrago que se agarra a qualquer pedaço de madeira. Ele se agarra na esperança de retorno da amada. Retorno este que o impediria de sucumbir à loucura. Neste livro ele nos apresenta personagens que estão submersos nas sombras da cidade. Seres invisíveis socialmente. Seres que são a escória aos olhos da sociedade. Repugnância, lixo humano. Embora, traga ao nosso conhecimento essa realidade, há certo distanciamento. O mendigo em questão narra os acontecimentos da farandolagem, mas mantem-se em seu mundinho. Certamente, por ainda se agarrar aos resquícios de esperança, não se deixa submergir no caos. Coisa que mais cedo ou mais tarde vai acontecer.


Dito tudo isso, só nos resta recomendar as leituras, para que cada um, a seu modo, tire suas próprias conclusões. Se Evandro Affonso Ferreira é um escritor hermético e complicado, eu com meus parcos conhecimentos literários fiquei absurdamente admirado pela qualidade de sua obra e digo se tratar de um dos nomes mais importantes de nosso cenário atual.

Comentários

  1. Parabéns, Flávio! Gostei muito do seu texto sobre o Evandro Affonso Ferreira. Depois, vou lhe enviar uma entrevista que fiz com o próprio. Deve sair no meu blog Balaio Cult em breve. Grande abraço!
    Heleno Álvares

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  2. Bela matéria Flávio,gostei muito o fato do autor não desejar milhares de leitores comuns e sim 15 geniais!

    Parabéns pelo blog
    Abraços

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