Uma novela de Mario Benedetti - A Trégua



Um homem simples, funcionário contábil de uma casa Importadora de Autopeças. Essa é a imagem do pequeno-burguês apresentada por Mario Benedetti em “A Trégua”. Uma vida de tragédia acompanha o personagem que aos 49 anos espera ansioso pela aposentadoria. Um diário pessoal de Martín Santomé narrando as vicissitudes de sua vida. Aquele era o método do personagem para esperar os dias de ócio que se aproximavam: “Só me faltam seis meses e 28 dias para estar em condições de me aposentar. Deve fazer pelo menos uns cinco anos que mantenho este cômputo diário do meu saldo de trabalho”. Viúvo, pai de três filhos com os quais tem uma relação conturbada. Uma mistura de preocupação e alheamento, um amor silenciado. Nessa brincadeira de passar o tempo, recebe novos funcionários a quem deve ensinar e supervisionar os trabalhos. Laura Avellaneda, uma dos novatos, causa-lhe boa impressão pelos traços de fisionomia e boa compreensão do que lhe explica. Mas com o decorrer da história veremos que não é apenas isso que lhe impressiona. Com o passar do tempo e a convivência, Martín assume que algo lhe atrai em Avellaneda e procura compreender de onde vem esta atração: “Continuo sem descobrir o que me atrai em Avellaneda. Hoje, estive estudando-a. Ela se movimenta bem, recolhe harmoniosamente o cabelo, sobre a face tem uma leve penugem, como a de um pêssego”.  A partir dessas observações, Martín mal sabia que sua vida se transformaria. Que o homem que se havia abandonado após a viuvez estava prestes a ressurgir e viver novamente as pieguices do amor, uma paixão que torna a vida mais interessante.

Diante de Avellaneda a vida não é apenas “trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações”. A vida, certamente, é mais atraente. Seguramente mais prazerosa. Após anos recusando à possibilidade de um novo amor, vivendo do sexo feito as pressas em quartos de hotel com mulheres que sequer reencontraria, Martín se deixa levar pelos encantos da funcionária. Vivendo um romance às escondidas. Sem que os companheiros de trabalho saibam. Sem que a família da jovem ou os próprios filhos tenham conhecimento da história.

Claro que a alguns personagens isso se revela. E, para mim, a felicidade que Martín atravessa é, sem dúvida, “A Trégua” em uma vida de infortúnios e misérias pessoais.


Marcelo Casacuberta - 1º.mai.05/Associated Press
O romancista e poeta uruguaio Mario Benedetti (1920-2009)


Vale a pena conferir. 

Comentários

  1. Vim pra conferir tudo aqui.

    Abraço e obrigado pelas indicações!

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  2. Cara, taí uma boa dica! Vou colocar na minha lista!
    Valeu!

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