Minhas incursões pela obra de José Saramago



Comecei minhas leituras de Saramago pelo livro mais polêmico. ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ é um livro importante pela dimensão do relato e da forma como os acontecimentos antes bíblicos são retratados longe da aura religiosa e da esfera mítica fundadora do pensamento judaico-cristão. É tão complexa esta relação que os religiosos de seu país não compreenderam o discurso contido no livro e, ainda pior, o viram como uma afronta aos dogmas religiosos que, se por ventura, ainda existisse o “Santo Ofício”, Saramago seria mandado diretamente ao fogo eterno pelas labaredas da Inquisição. Creio eu que muitos desejaram piamente que nosso Prêmio Nobel fosse queimado em praça pública.
Saramago é tido como um escritor complexo, de difícil entendimento. Talvez pela dificuldade que muitos encontram em sua leitura, devido a sua escrita nada convencional. A forma é um agravante para leitores acostumados aos modelos narrativos vigentes, onde narrador e personagens estão delimitados dentro da trama pelos sinais gráficos. Seus livros, geralmente, são compostos pela narrativa em discurso direto/discurso indireto, de escassa pontuação, misturando-se as vozes, tanto de narrador como de personagens, separadas apenas por vírgulas. A leitura passa a ser um exercício de adivinhação, onde o leitor precisa descobrir linha a linha, frase a frase qual é a voz ali encontrada e de que se trata a frase dentro da conversação dos personagens. As interrogações e exclamações são passiveis de identificação apenas no contexto do que está escrito, sendo a leitura, uma obrigatória, ida e vindas através das páginas para sua compreensão. No entanto, ao acostumarmos a tal particularidade, a leitura passa a fluir com mais naturalidade e, passa-se a ter gosto pelo estilo e humor refinado contido em suas obras. Para tanto é preciso sair do conforto das leituras fáceis, confrontar com um possível preconceito e desbravar sua selva de palavras.
Voltando ao romance ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’ – Saramago nos apresenta um Cristo humanizado, longe de ser a divindade, ou mesmo, divinizante, como se espera de um relato a cerca da vida de Jesus. Ele é puramente humano, nascido de uma relação homem e mulher; só aí, Saramago rompe com dois dogmas da cristandade: A Natureza Divina de Jesus e a Perpétua Virgindade de Maria.
Partindo dessa premissa e de outras tantas relações intricadas à trama, segundo Lopes (2010), a obra é de uma originalidade poderosa e suficientemente polêmica para desencadear reações de extremo desagrado entre os católicos conservadores.
A relação de Saramago com a religião, por si só, é conflitante, sendo ele, comunista e um ateu confesso. O que lhe rende inúmeros ataques tanto do Clero quanto de fiéis, levando, até mesmo, ao veto da obra na lista de indicados ao Prêmio Literário Europeu. Por iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura de Portugal, ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’ estava impedido de concorrer em tal certame com a justificativa de ser um livro polêmico que atacava diretamente os princípios religiosos formadores da nação portuguesa.
Polêmicas a parte, ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’ é extremamente engenhoso. Tem uma profunda relação com o período de vida do personagem histórico, dialogando bem com os Evangelhos Canônicos e baseando em outros escritos que nos revelam a humanidade de Cristo e a sua ligação terrena com os demais personagens. Nada invalida a criatividade e inventividade de Saramago que apresenta o discurso concernente com a sua visão de mundo e de homem não religioso.
Embora o livro confronte as verdades religiosas das quais compartilho desde a mais tenra idade, não o vejo como uma afronta, afinal, todos nós somos ateus em relação aos deuses dos outros, só o nosso tem validade em termos de verdade absoluta.


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