A Cidade Atravessa (*)

foto de Isaías de Faria



Automóveis deslocam vertigens,
ópio incessante nas veias
da cidade que cresce –
abruptamente – ladeira acima.
As retinas queimadas de sol,
claudicante desejo
a invadir-me inteiro:
                  [a vontade de voar
sobre esse deserto de gente
em instante impreciso
imperiosa perfeição
a varar o sumidouro
de concreto armado
onde só resta fuligem
e acinzentada penumbra
de almas que se esvaem
extintas

A imortalidade transborda
em inanimadas formas urbanas.
Gigantes geometrias
coagindo-me o instinto:
sou das matas, da margem do rio,
sou de um mundo intangível
nessa selva de pedra.

Em meu passo de caipora,
trajo versos sobre o asfalto
luta humana contra os autos
que a cidade me atravessa.


Flávio Offer


*** Poema escrito para a 3ª Rodada da 2ª Oficina Inspiraturas de Poesia.
*** A Foto acima é de autoria de Isaías de Faria do blog ESTAÇÕES.

Comentários

Postagens mais visitadas