A Máquina de Escrever



 



Jazia sobre a prateleira do quartinho de badulaques aquela pequena preciosidade do tempo de adolescência – uma Olivetti Lettera 25 – adquirida por meu irmão em meados dos anos 90. Dias inteiros permaneci diante daquela novidade tentando descobrir os desafios que o teclado me infligia. Hoje é mais um objeto encostado no canto, perdido entre tantos outros que vão se amontoando, como se fosse, em algum momento, apresentar qualquer serventia. E, lá ficam sobrepostos, em seu território delimitado por tábuas empoeiradas. Imensos caixotes com suas peças obsoletas e que sequer recebem visitas ou um olhar mais atento a observar seu estado de conservação.

Retiro a máquina daquele cemitério pensando revolver a poeira e consertar possíveis avarias. O rolo não trava a folha, nem o carro permanece na disposição necessária para que um texto seja datilografado ininterruptamente. A fita apresenta aspecto apodrecido. Os carrosséis apresentam ferrugem no eixo impedindo o rolamento. A máquina se mostra inutilizada. Não serve mais a meus exercícios de datilografia, nem mesmo para compor minhas poesias ou escrever minhas memórias. Às favas com tudo.

Talvez com uma boa polida e algum óleo nas juntas possa torná-la apresentável e dispô-la sobre uma mesa ou estante como objeto de decoração. Trata-se de uma relíquia, nem tão antiga, mas já rotulada como "peça de museu". Certamente, alguma criança observadora iria notar sua presença em meio aos livros e diria espantada: "nossa que computador esquisito! Onde está a tela?" ou, porventura, na possiblidade de uso da máquina, exclamaria: "legal esse computador! A gente digita e a folha já sai 'imprimida'..." Provavelmente não compreenderia minhas explicações do funcionamento da máquina. Exclamaria meio desapontada que não era possível um mundo sem os computadores, celulares, ipods, tablets e outras engenhocas tecnológicas que se incorporam no cotidiano e parecem, cada vez mais, entranhados em nossa vida doméstica.

Não é nostalgia o que sinto. Apenas o olhar perdido em um tempo embuçado que se vai dissipando lentamente na memória. E, com ele, aquela Olivetti Lettera 25 que fica esquecida em um quarto de ferramentas, entre amontoados de coisas inúteis, como tantas outras que acumulamos ao longo de nossa existência.

 


 

Comentários

Postar um comentário

SEJAM BEM-VINDOS!
Caríssimos amigos leitores, escritores, poetas e seguidores:

é com grande entusiasmo que lhes recebo em meu espaço. Façam dele um lugar de interação e descobertas, quiçá, aprendizado e trocas de experiências. Todos os comentários e/ou sugestões são bem-vindos. Boa leitura a todos! Apreciem, se refestelem e comentem.

Abraços.
Flávio O. Ferreira

Postagens mais visitadas