MISANTROPIA 6

1 - GENEALOGIA


Paulo Leminski engendrou uma obra diversificada atuando como compositor, poeta, prosador, tradutor e biógrafo. Nascido em 24 de agosto de 1944, em Curitiba - Paraná, filho de pai polonês com mãe negra, "mistura étnica da qual muito se orgulhava", segundo Góes e Marins em Paulo Leminski - Seleção, Global Editora. Em 1963, conheceu Haroldo de Campos na Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte. Leminski estreou com cinco poemas na revista Invenção, da geração concretista, sendo percebido como o dono de um humor refinado. Foi professor de Redação e História em cursos pré-vestibulares de Curitiba. Colaborou e editou inúmeras revistas de poesia na década de 70. Com o livro Catatau, despertou o interesse de grandes nomes do momento, como os tropicalistas, de onde surgiram várias parcerias musicais. Outras parcerias foram feitas com outros nomes da poesia, como Waly Salomão, Chacal, Francisco Alvim, Ana Cristina César e Alice Ruiz (com quem se casara em 1968).
Em 7 de junho de 1989, morre Paulo Leminski, deixando uma vasta obra que o torna um dos grandes nomes da geração de 70/80.



POEMAS BREVES DE PAULO LEMINSKI

en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas

***

   relógio parado
o ouvido ouve
  o tic tac passado

***

PRA QUE CARA FEIA?
             NA VIDA
NINGUÉM PAGA MEIA.

***

   eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
   não lhe dei ouvidos

   quem sou eu para falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
   eu cuido dos meus


2 - NOTÁVEIS 



Conheci o Cássio Amaral quando cheguei a Araxá e passei um período no Hotel em que trabalhava. Um cara pra lá de espirituoso, que uivava pra lua nas noites em que saíamos para tomar umas geladas ( isso bem depois daquela temporada no hotel); aliás, Cássio Amaral já havia se formado em História e era Professor na rede pública de ensino. Poeta Zen, Cão Danado - título de seu primeiro e segundo blog. Depois vieram o Sonnen e, posteriormente, o enten katsudatsu (blog em que publica atualmente). Publicou os livros: Lua Insana Sol Demente (2001), Estrelas Cadentes (2003), Sem Nome (2005), Sonnen (2009) e Enten Katsudatsu (2010 - livro on-line publicado na revista Germina Literatura). Mora atualmente em Barra Velha, Santa Catarina.

YUME

Cássio Amaral

Reflexo no mar de Chagall
Nuvens conspiram absinto
Na noite engolindo o céu azul

Dois e dois são cinco
No meio do céu um eclipse
Torturando o léxico incontrastável

Endoidar as metáforas
Para comê-las com hipérboles
Safadas e ávidas de metalinguagem.

Todo dia me suicido
Lembrando que nunca envelheço
Meu preço é ser inocente.

Rola um blues
Que Deus nos preteja
A alma reluz azul.



3 - ESCRIVANINHA




Loucura e Silêncio


Flávio O. Ferreira


Não fosse esta loucura
serias mais que abstração nesta linguagem de ícones
que se movem como formigas gigantescas
a carregar consigo as lembranças.
Não fosse este silêncio
regressarias de tuas viagens, mesmo com ressaca de viver
ou tédio a corroer tuas esperanças que em vão
se movem como ratos a remexer latas na despensa.
Não fosse esta loucura
estarias presente em meu cubículo a bater-me na cara,
coagindo-me a dizer mentiras que te agradam,
apenas para salvar-te da névoa que encobre teu rosto.
Não fosse este silêncio
viria possuir-me o teu espírito em noites sem lua
em tempos de mistério e sombra, simplesmente
pra fazer gracejos e brincar sobre meu corpo quente.
Não fosse esta loucura
não serias só palavras rabiscadas por mãos trêmulas
em muros carcomidos, onde a alvura da cal
não esconde os desfavores do tempo.
Não fosse este silêncio
não terias ido embora pra longe destes olhos
deixando a este louco apenas o consolo
de versos obscenos no espelho do banheiro.
Mas, terias me libertado.
Desatando os nós que nos envolvem;
quebrando este silêncio que devora
as entranhas sufocando em nós o ânimo.
Quebraria este espelho que revela
a nossos olhos as misérias
a que nos condenamos;
Romperia o cordão que injeta em nós venenos.
Abortaria, pois, este desvanecimento
que nos rouba lentamente um do outro,
tornando loucura a tudo que um dia
dissemos querer da vida.

Comentários

  1. cássião e leminski. dois samurais da palavra!!!!!!!!!!!

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  2. Olá Flávio!

    Quantos assuntos. Deles pincelo:

    # seus versos: “... tédio a corroer tuas esperanças que em vão/ se movem...”. Esse trecho traduz exatamente o que às vezes eu sinto.

    #Como complemento os de Cássio: “Todo dia me suicido/ Lembrando que nunca envelheço/ Meu preço é ser inocente.”

    Mas, voltando aos seus versos: “coagindo-me a dizer mentiras que te agradam”. Fazemos tanto por amor...

    Se te consola, também já perdi com meu silêncio.

    No mais, sinto muito pela demora para vir lhe visitar. O meu tempo está cada vez mais curto. Enfim, obrigada por seguir o BRAILLE DA ALMA. Seja bem-vindo! Também lhe seguirei. Felicidades.

    Juliana Carla
    brailledalma.blogspot.com

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