MISANTROPIA 5

1 - GENEALOGIA


Hilda Hilst
HILDA HILST nasceu em Jaú em 21 de abril de 1930. Viveu desde 1965 na chácara CASA DO SOL, em Campinas - SP. Formada em direito, dedicou-se integralmente à literatura. Faleceu em 4 de fevereiro de 2004. Possui uma obra fantástica. Com profunda ironia, faz uma afronta aos valores e costumes, contraria regras e mergulha na perplexidade que é a vida dos merencórios mortais. Digna de apreciação e uma leitura mais apurada de suas nuances, em dado momento, a obra assusta aos desavisados, porém, é de grande valor aos que se deleitam com ótimos trabalhos literários sem fazer deles juízo de valor ou censuras prévias quanto ao seu conteúdo. Hilda não se resume aos trabalhos obscenos que, descaradamente e sem pudores, tramou com genialidade. Sua obra se estende através da POESIA, PROSA E TEATRO com o mesmo esmero poético. 


PRELÚDIOS-INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR.

de Hilda Hilst


I
Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

II
Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.
(...)

[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]
[in Poesia: 1959-1979/ Hilda hilst. - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]

2 - NOTÁVEIS

Recebi com grande alegria o livro FANTASIAS PARA QUANDO VIER A CHUVA de Samantha Abreu. Um belo trabalho gráfico que condiz com a excelência do conteúdo presente no impresso.


Samantha Abreu é de Londrina, nascida em 1980. Foi publicada em diversas antologias, sites e revistas literárias. Seus escritos podem ser apreciados nos blogues HAUTE INTIMITÉ e MULHERES SOB DESCONTROLE.
Em tempos de tempestades é bom tecermos nossas próprias fantasias para sairmos na chuva, ou mesmo, pra fugirmos dela. A Poesia da Samantha é essa roupa impermeável que nos permite sair sob os maiores temporais e dançarmos alegremente como um Gene Kelly desvairado, sem medo de sermos vistos. Palavras que mantém o espírito em chamas mesmo sob as tempestades de verão, capazes de nos transportar a espaços íntimos e ficar ali olhando de esguelha à espera do imprevisível. Fantasias para quando vier a chuva é o véu rendado por onde espreitamos a intimidade feminina que se esgueira sob as palavras e repousa no calor do colo da poesia.


FANTASIAS PARA QUANDO VIER A CHUVA


Debaixo da casca escondo fantasias de todas as cores,
dores e amores.
Todas elas pertencem às mulheres que moram em mim:
aquelas que jamais serei;
as que nunca vi;
e muitas que não compreendo.

São as roupas dessas mulheres que me garantem a
sobrevivência - colorida e inventada - sob o peso inexorável dos dias.

Mais ainda nos dias em que se aproximam os temporais.

............
INSÔNIA


Não era sonho, era insônia.
A imersão na banheira
te transformando,
daqui debaixo,
em deformidades.
Samantha Abreu

Tuas ondulações, artificiais,
teus gestos, lentos.
Já sinto o enrugamento de dedos
do corpo, da alma:
envelhecidos.
Se me agito,
enrosco nos longos cabelos,
e quando notas meu quase sufoco,
ameaças,
um puxar de mãos.
Não mais alcanço o desafogo,
atolei neste lodo,
no fundo,
e a água tão suja me impede
de beber as próprias lágrimas.

(Samantha Abreu - Fantasias para quando vier a chuva, Editora Multifoco - 2010)




3 - ESCRIVANINHA



Comunicação

Numa expressão vernácula
Tentei exprimir aptidão
Ante o normatismo hermético
Que vislumbrava a linguagem
De minha mãe pátria.

Porém me perdi em miopia
No primitivo linguajar
Dos corpos nus.

Foi o melhor diálogo!

****poesia do livro ITINERÁRIO FRAGMENTADO (2009).

Comentários

  1. Offer

    Realmente está divino seu blog,

    Gosto muito de Hilda.....

    bj

    ResponderExcluir
  2. amo Hilda...
    teu texto : final bem legal! rs
    bjbjbj

    ResponderExcluir

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