MISANTROPIA - 4

1 - GENEALOGIA



Paul Célan

Paul Celan nasceu em 23 de novembro de 1920 em Chernovitz na antiga Romênia, filho de judeus de origem alemã. Passou pelos tormentos da Segunda Guerra, vendo seus pais morrerem e sendo preso e obrigado a realizar trabalhos forçados em campos de concentração. Foi considerado um dos maiores poetas alemães do pós-guerra. Sua obra é marcada pela dor da opressão sofrida pelos judeus nos campos de extermínio. Paul Celan dá fim a uma vida marcada pelo caos da guerra e o reconhecimento através de uma literatura premiada ao suicidar-se no rio Sena em 1970.


PRÓXIMO AOS TÚMULOS

Conhece a água do rio austral, ainda,
mãe, a onda que bateu em tua ferida?

Inda sabe, com moinhos em meio, o capão
quão suave anjos teus sofreu teu coração?

Nenhum dos choupos e prados pode mais,
retirar-te o infortúnio, of’recer-te a paz?

E não vai o Deus co’a vara que germina
colina abaixo e colina acima?

E como outrora em casa, suportas, mãe,
a suave, dolorosa, rima alemã?

2 - NOTÁVEIS
O Escambau é a poesia além da poesia. É o dizer palavras além da palavra escrita e encontrar sentido no não-dito. Assim, se faz a poesia de Heleno Álvares, moeda imutável, que nos proporciona inúmeras trocas deixando, ainda, espaço para outras e outras mais; sutilezas inumeráveis, mergulhos precisos na linguagem cravada na alma; alma esta, transmutada em versos. Heleno Álvares é araxaense, publicou os livros Desordem Contemporânea (1998), Observatório Insólito (2004) e O Escambau (2010). 

No fim do olhar vê-se o invisível(*)

Entrei na treva
desolhei o claro
vi no vaga-lume
uma estrela negra
intensamente a brilhar
foi quando aprendi
que no fim do olhar
vê-se
o invisível que vi

Poética dos Afogados(*)

Poesia
esse mar sem margens
por onde navegamos
com marés de linguagens
em que sempre remamos
rimamos livres
soltos
aos meandros
das poéticas viagens
bons malandros
viajamos
e não pagamos passagens

(*)Poemas do livro O Escambau (2010)


3 - ESCRIVANINHA

Um canto para Paul Celan


Eu me perdi no pó durante a caminhada...
hoje, descaminho pelo vão da estrada!
Paul Celan cristalizou-se intuitivo,
o Sena levou-o em sufocante abraço.
Eu, aos gritos, vejo a poesia sufocada,
meu ato de contrição indolente.
As sombras carregam Celan Paul, forçam-no a cavar
seu próprio túmulo, sufoco do tempo, silêncio.
Assim o tempo é mais tempo,
e meu tempo é ampulheta imprecisa.
Sorrio um sorriso escasso e tímido
metade de mim grita um silêncio desmedido
e os outros pedaços estão expostos na calçada.

Poema de Flávio O. Ferreira

Comentários

  1. que belo poema, esse seu, sobretudo esse grito calado do final!


    bjbj

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