MISANTROPIA - 3

1 - GENEALOGIA



Maiakovski é uma das grandes referências na poesia mundial, nascido em Bagdadi na Geórgia, Rússia, em 19 de julho de 1893. O poeta da revolução, tanto de ideias como na vida prática, teve a poesia como um “modus vivendi”, imprimiu em seus versos o espírito de uma época de profundas  transformações, sendo considerado “o maior poeta futurista” e, ainda, o grande poeta do período soviético. Foi ativista cultural e revolucionário que expressou através de sua obra suas convicções e adesão ao regime socialista pós Revolução de Outubro. Em 14 de abril de  1930, por motivos que não são precisos quanto à relação com a atividade literária e social, embora muito se especule as razões, encerrou, com um tiro no peito, uma vida profícua e de inesgotável talento.

O Poeta-Operário

Grita-se ao poeta:
“Queria te ver numa fábrica!
O quê? Versos? Pura bobagem!
Para trabalhar não tens coragem”.
Talvez
Ninguém como nós
Ponha tanto coração
No trabalho.
Eu sou a fábrica.
E as chaminés
Me faltam
Talvez
Sem chaminés
Seja preciso
Ainda mais coragem.
Sei.
Frases vazias não agradam.
Quando serrais adeira
É para fazer lenha.
E nós que somos
Senão entalhadores a esculpir
A tora da cabeça humana?
Certamente que a pesca
É coisa respeitável.
Atira-se a rede e quem sabe?
Pega-se um esturjão!
Mas o trabalho do poeta
É muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.
Penoso é trabalhar nos alto-fornos
Onde se tempera ferro em brasa.
Mas pode alguém
Acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
Com a lixa do verso.
Quem vale mais:
O poeta ou o técnico
Que produz comodidades?
Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.
Camaradas dentro da massa operária.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
Somente juntos remoçaremos o mundo,
Fá-lo-emos marchar num ritmo célere.
Diante da vaga de palavras
Levantemos um dique!
Mãos a obra!
O trabalho é vivo e novo!
Com os oradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
Que façam mover-se a mó.

(1918)

2 - NOTÁVEIS

http://cdeassis.files.wordpress.com/2010/03/rafaelnollinew.jpg

Apresento L. Rafael Nolli e sua poesia. Nolli é araxaense, nascido em 1980. Poeta de orientação marxista. Possui uma obra de fôlego publicada no livro: "Memórias a beira de um estopim" - 2005 e em várias publicações em antologias, jornais e revistas literárias impressas e virtuais. Aficcionado pela "sétima arte", seus poemas se apresentam como pequenos recortes visuais que se assemelham às cenas que compõem o corpo de um longa-metragem.
 Os poemas de L. Rafael Nolli podem ser lidos no blog Stalingrado III


Legenda para filme de Sergei Eisenstein


O poema tem que ser ácido,
não por mim,
mas por Sacco & Vanzetti –
sentados em cadeiras onde serão eletrocutados.

O poema tem que ser ferino,
não por mim,
mas pelo Líbano novamente bombardeado –
e que será bombardeado até que os telejornais
se cansem de noticiar a desgraça dessa guerra.

(Que o verso noticie as crianças confusas,
as bibliotecas cheias de poesia,
as mulheres agarradas às barbas de Maomé,
os cedros cantados pelo profeta Ezequiel –
todos excluídos das estatísticas,
pois suas mortes foram desprezadas
por não venderem jornais
e atrapalhar o comércio bélico.)

O poema tem que ver além do seu próprio umbigo,
não por mim,
que muito sei do meu umbigo,
mas por todos aqueles que amanhã
acordarão desesperados –
eu e meu umbigo entre eles.

O poema tem que ser denunciante,
não por mim,
mas por Ruanda
que na Noite dos Facões
perdeu um milhão de seus filhos
para uma fábula belga
sem príncipe encantado ou final feliz.

(Que no poema escorra o sangue dessa gente
que ainda ontem estava viva,
donas de suas mãos e
cabeças decepadas pelos vizinhos,
onde buscavam o sal
que faltava para colorir as suas mesas escassas.)

O poema tem que ser visionário,
não por mim,
que mal posso ver além das brumas do agora,
mas por todos aqueles que mesmo vendados continuam
sem dosar os passos no campo minado das cidades.

(Que o poeta saiba cantá-los
sem se esquecer dos
crimes diários que a sociedade obriga-os a cometer
[Bakunin sorri nessa estrofe!])

O poema tem que ser dos homens,
respirar o mesmo ar que eles,
chorar os mesmos mortos,
estar ombro a ombro nas filas dos hospitais
ou nas trincheiras do desemprego,

não por mim, poeta, não por mim.



3 - ESCRIVANINHA



IV.


Oh, Maiakóvski! Que ânimo te arrebataste
Desta vida estúpida?
Que verme atravessara-lhe a alma
A corroer todas vossas esperanças?

Ah, meu caro poeta, seus versos traduziram
O espírito de uma época...
Teu grito, tua voz ecoaram na revolução.
Mas, onde foste?
Que miserável sentimento tomara conta de ti?

Não compreendo! Lançaste sobre vós,
Sobre vosso próprio corpo, toda a ira,
Todo despropósito em viver.

Oh, meu amigo, por que puseste uma bala
Em teu próprio peito?
Que motivos, que revoltas, que amores?
Tu foste homem, foi poeta.
Decidiste com coragem seu próprio destino,
Escreveste com a pena vossa própria pena,

E eu? O que faço de minha vida?..
Não sou tão homem, nem tão poeta,
Encolho-me sob minha casaca,
Escondo-me nas multidões,
Sou mais um, enchendo o papel de palavras,
Gritando meu silêncio e mais nada.

Ah, meu irmão, meu camarada...
Se houvesse em mim uma gota de coragem
Chegaria “às vias de fato”, esmagar-me-ia, pois.
Mas, não sou grande como vós,
Nem tenho, sobremaneira, vossa postura,
E, meus versos são calejados, inspirados
Na insatisfação que é a vida: que vida!

Ah, se pudesses me ouvir!
Que conselho me darias, proletário poeta?
Há tempos a vida perdeu a cor e razão
E minha inspiração está no enfado, no tédio.
Não encontro sentido na revolta, na luta,
Tudo se transformou em uma névoa obtusa,
Numa escuridão infinita, que nem percebo
O brilho da vida.

Sim, terei um dia, no desconsolo de um quarto
Escuro, a hombridade de silenciar-me.
Calarei para sempre esta voz
Que insistente vos declara minha covardia;
E, quando cessar-me de ser covarde,
Não haverá tempo para ter coragem,
Pois minhas mãos, tremendo de velhice,
Aceitarão, resignadas, a loucura que é viver
À espera da morte.

Poema do livro: Itinerário Fragmentado - 2009

Comentários

  1. Flávio, muito obrigado pela referência! Fico feliz em ver um poema meu por aqui! Ainda mais em meio a tanta gente boa e talentosa! Agradeço demais, meu camarada!
    Abraços e parabéns pelo blog!

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  2. belo admitir-se um pouco fraco, belo poema e referências.

    queria ler maiakowski no original...mas não dá...

    Tenho aqui o livro do Rafael (e ele tem o meu):muit, muito bom!

    ResponderExcluir

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