Dom Casmurro: um olhar sobre a obra



Ao mergulhar no realismo brasileiro, torna-se indispensável a leitura da obra romanesca de Machado de Assis. Os primeiros passos se fazem através de seus contos que nos permitem subsídios necessários para desbravar a complexa trama em que são construídos os seus personagens.
A indiscutível genialidade de Machado de Assis vai, aos poucos, aflorando, o que requer um olhar mais apurado sobre sua escritura. Analisar seus romances não é tarefa fácil, apesar de prazerosa, exige-nos perspicácia para compreensão de seu olhar.
É nesta perspectiva que nos propomos a fazer uma análise de Dom Casmurro, uma de suas principais obras. Dom Casmurro, assim como toda obra machadiana, apesar de pertencer ao período do realismo brasileiro, possui traços marcantes que a diferencia em relação aos autores daquele período. Machado de Assis, em sua genialidade, compõe uma obra com visão muito além de seu tempo.
Dom Casmurro é narrado em primeira pessoa, sendo que, o narrador já na velhice, tenta em vão, “atar as duas pontas da vida”. Através da metalinguagem, o narrador nos mostra o porquê do título e, até mesmo da escritura da própria história. Ao reconstruir o ambiente de Matacavalos em Engenho Novo, Bentinho tenta “restaurar na velhice, a adolescência”, isso, no entanto, não é possível, visto que, não conseguira compor os tempos idos, restando-lhe apenas o consolo de contar algumas passagens de sua vida em uma obra que pudesse vir a ser o princípio para uma obra maior e se perpetuasse como um bom legado, já que não o tivera durante a vida em que se deixou perder.
Ao narrar a adolescência em Matacavalos vai se construindo a personalidade dos personagens; personalidade esta, que na visão do narrador, serve de amálgama para explicar a conduta de cada um na vida adulta. Isso acontece com Capitu, como insinua o narrador: "Se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca". Esta afirmativa ao final da narração é tendenciosa e, pode levar o leitor desavisado apenas ao enigma da possível traição de Capitu, sendo que, o importante  no romance é a visão amargurada de um velho que, durante a vida, viveu a paranóia de ter uma mulher que fora muito mais mulher do que ele fora homem.
Capitu tem uma personalidade marcante que é oposta à mulher da época. O perfil feminino de então, era de mulheres resignadas e submissas que viviam sob o jugo dos maridos, como se pode notar em Dona Glória, que enviuvara nova, “contava trinta e um anos de idade”, e, assim permanecera morando perto da igreja, onde fora sepultado o marido e, metida em roupas que lhe escondiam a beleza da juventude; os padrões morais da época a faziam assim.
Capitu subverte todos estes padrões tomando as rédeas em todas as situações em que se faz necessário sua perspicácia (o narrador diria dissimulação). No capítulo 33 (O Penteado), é Capitu quem toma a iniciativa do primeiro beijo. Sua postura se mostra ainda mais forte quando as desconfianças de Bentinho se tornam mais pungentes, levando-a a pedir a separação. Capitu e Bentinho, apesar do amor declarado da adolescência, eram muito diferentes, “eram dois e contrários, ela encobrindo com a palavra o que eu [Bentinho] publicava pelo silêncio.” Ela era “uma criatura mui particular”, cujas atitudes a colocavam muito a frente das mulheres de seu tempo. Isso era a causa da desconfiança do marido que mesmo após sua morte, ao narrar sua vivência, demonstra o mesmo despeito, o irremediável ciúme que fez perder o sentido de anos de uma relação.
Bento Santiago, no auge de sua casmurrice, na tentativa de fazer-se presente, preenchendo a lacuna onde é ele quem falta, acaba narrando uma história que vem explicar sua velhice vazia de sentido. Seu refúgio são as velharias da adolescência e, agora, os fantasmas que vão surgindo de sua caverna interior para compor o espaço de suas memórias. A narrativa é reflexo de um espírito transtornado, um homem que chega a velhice com ar sombrio, cuja visão é amarga e pessimista. Em sua mente criou-se a ideia de que fora traído. Pouco a pouco, perdeu a todos; mulher, filho e amigos, ficando-lhe apenas os mais recentes, pois “todos os mais antigos foram estudar a geologia dos campos santos”.

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