ENTREVISTA CONCEDIDA AO BLOG LITERATURA CLANDESTINA

Texto e entrevista elaborados por ELENILSON NASCIMENTO

“Destituo-me de qualquer título/Entrego-te a pena para que faças dela o que quiseres/Não sou o que imaginas, tampouco o que desejas/Sou apenas um aluado devaneando sonhos”.


Sempre foi complicado se estabelecer como artista nesse País de faz-de-conta. E hoje, maIs do que nunca. É complicadíssimo ser escritor, poeta, músico, artista plástico, enfim, produzir arte no Brasil. A primeira dificuldade já surge no acúmulo de atividades. Vários artistas têm que se desdobrar entre alimentar a sua arte e alimentar-se. Salvo raras (*diria raríssimas) exceções, ainda não é possível (pelo menos à maioria esmagadora) viver exclusivamente de arte no País.

Isso, contudo, ainda é o de menos. Ser um escritor brasileiro é querer ser um herói de uma arte que anda caducando. Concluído um livro, por exemplo, com entusiasmo de criança, mas com ingentes sacrifícios, ele precisa empreender uma humilhante e incerta romaria às editoras, se quiser que ele seja publicado e saía da gaveta.

Pensando nisso, intercalei algumas perguntas sobre esse assunto nessa entrevista com o jovem escritor Flávio O. Ferreira, que ainda se define como poeta e operário, natural de Bela Vista de Minas (MG), autor de “Cata-Ventos” (Kroart Editores/2005) e “Itinerário Fragmentado” (Quártica Premiun/2009), pois, no Brasil, ainda é bastante rara, quase inexistente, a figura de um jovem que se dedica a literatura. Nesta entrevista, debatemos sobre a questão da distribuição de livros, a dimensão do mercado editorial em relação e outros assuntos. Temos é que sobreviver nesse País onde pesquisas mostram que apenas pouco mais de cem municípios, dos mais de seis mil existentes, têm livrarias. É espantoso (ou calamitoso?), mas verdadeiro!

“Renego qualquer herança/Os rabiscos nos muros são mais sinceros, mais honestos, mais poéticos/Estas palavras, aqui rabiscadas, nada valem, servem apenas de muleta onde escoro meu corpo fatigado tentando equilibrar-me sobre as pernas que já não andam”. Esses versos sedentos e cheios de gritos no início e, agora, no final dessa introdução foram extraídos da poesia “Renúncia”, composta pelo Flávio.



LITERATURA CLANDESTINA - Um assunto muito discutido no momento é o da fotocópia de livros. Mas num país onde quase ninguém coloca livros na sesta básica o que podemos ainda esperar? Onde a média dos preços dos livros está em torno de R$ 40,00 até R$ 90,00, qual a sua opinião?

FLÁVIO O. FERREIRA - O que se pratica em relação à democratização da leitura e do livro é quase imperceptível, pois o mercado editorial está voltado para a lucratividade. O que se vê são livros que tem um custo muito baixo sendo vendidos a preços exorbitantes com margens de lucro elevadíssimas. Pela lógica mercantilista vigente é inviável a distribuição de livros em cestas básicas. Embora, na minha opinião, seja a melhor forma de levar cultura e conhecimento às classes desfavorecidas. Há muito que ser feito, projetos precisam ser mais abrangentes, sair do papel e do discurso demagógico; autores e editores precisam sair desse pântano de lucro, deixar de serem mercenários da palavra e fazer um processo mais justo na aplicação de valores às obras literárias. Afinal, a literatura sobrevive à custa dos leitores, sem eles não há sentido a existência dos livros.

LITERATURA CLANDESTINA - Comenta-se muito também sobre o fim do livro e da biblioteca. O que você acha?

FLÁVIO O. FERREIRA - Com o avanço da tecnologia muitas coisas irão se modificar. Já existem vários modelos de livros eletrônicos, coisa que será uma tendência nos próximos anos, embora, ainda seja uma minoria a ter possibilidade de um contato direto com essas novas tecnologias. Não tenho tanta crença que o formato convencional e as bibliotecas venham a se extinguir, mas com certeza, serão espaços muito diferentes, irá se mesclar o convencional com mídias em avanço, mas isso são apenas especulações e idéias que faço do que pode vir a ser.

LITERATURA CLANDESTINA - De onde vem a “inspiração” para criar as histórias e os personagens? Se bem que eu não gosto muito dessa palavra como atributo aos escritores de verdade.

FLÁVIO O. FERREIRA - Quando escrevo as idéias surgem das coisas cotidianas. Os acontecimentos a minha volta, conversas, situações inusitadas e até mesmo óbvias são fermento para o que escrevo. Também não sou muito adepto a expressão inspiração, pois, o que existe é trabalho. Se não sentar para pensar e escrever, as coisas não surgirão simplesmente como um estalo. Muitos já disseram isso antes, mas é uma verdade, é preciso transpiração. É preciso se debruçar sobre a página em branco e fazer um exercício cognitivo, trabalhar a linguagem, buscar na realidade o que possa ser matéria-prima digna de tornar-se ficção.

LITERATURA CLANDESTINA - E na tua família existe uma cultura do livro, ou ele se deu mais tarde na tua vida?

FLÁVIO O. FERREIRA - Minha origem é de cidade pequena, pouco mais de 10mil habitantes. E de família de baixa renda. Pai analfabeto e mãe semi-alfabetizada. O que adiou um pouco a cultura do livro e, até mesmo o gosto pela leitura. Meus primeiros contatos ocorreram na escola, porém, muito timidamente. Minha mãe prezava pela educação, contudo a única coisa que podiam oferecer era uma vaga na escola pública e o básico em material escolar, tudo sem muita ousadia. Livros de leitura que eram pedidos pelos professores, raramente eram possíveis comprar, as bibliotecas praticamente não possuíam exemplares suficientes para demanda, ficando assim, geralmente à margem do que acontecia. Sempre ficava a espera de um empréstimo ou me perdia no ostracismo, sem vontade de ler e até mesmo vergonha. Li pouco na infância e pré-adolescência.

LITERATURA CLANDESTINA - É possível supor que, pelo fato de que somos supostamente “devoradores de livros”, o interesse pela escrita se dá de uma forma quase natural. Comemos livros para sobreviver à alienação. Quando começou a escrever e percebeu que o que escrevias tinha qualidade? E como se deu o processo que levou à publicação dos teus textos?

FLÁVIO O. FERREIRA - Embora não tivesse o hábito de ler com freqüência, era um menino muito imaginativo, a timidez e o retraimento fazia-me criar mundos interiores, coisas muito próprias e íntimas. E, isso foi crescendo comigo. Já no início da adolescência, aos 13 anos me deparei com a morte de minha mãe. Ponto marcante e crucial para que se desenvolvesse em mim o hábito da escrita. Tudo era feito como uma forma de acalantar o espírito; diminuir a angústia e desespero de se ver ao encontro do vazio. Foi uma ruptura brusca e eu necessitava de uma válvula de escape para não me ver mergulhado na loucura. Com o tempo o que era válvula de escape passou a ser hábito e o que virou hábito, tornou-se necessidade. O já tímido e retraído, tornou-se mais introspectivo, passei a mergulhar em leituras e a escrever mais e mais. Nesse período conheci a poesia de Drummond, principalmente. Tudo que lia era motivo para tentar imitar e até hoje continuo tentando. Amigos que conheceram o que escrevo, muito me incentivaram e no ano de 2001 comecei a participar de concursos literários, tendo textos escolhidos para participar de antologias. A partir destas participações fui amadurecendo a idéia e dando mais credibilidade ao que escrevia. Em 2004 participei junto a outros 16 autores de uma antologia, cujo título era “Poesia ao alcance de todos” – com lançamento na 18ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo – pela Litteris Editora, surgindo, assim, a vontade de um livro solo, que foi publicado no ano seguinte. “Cata ventos”(2005) foi publicado a partir de poesias reunidas. Publicado pelo selo KroArt Editores e, lançado na 12ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Em 2009 publiquei o livro “Itinerário Fragmentado” pelo selo Quártica Premium, o lançamento ocorreu na 14ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

LITERATURA CLANDESTINA - Interessante observar que muitos romances também tratam de livros. Livros dentro de livros. “As Confissões Prematuras”, por exemplo, é a angústia de um escritor. “A Vida Breve” de Sezefredo das Neves também. “A Curiosa História do Editor Partido ao Meio na Era dos Robôs Escritores”, de José Luis Saorín, é maravilhoso. Você acha que livros assim são como gritos no vazio?

FLÁVIO O. FERREIRA - Acredito que uma literatura de qualidade nunca é um grito no vazio. O livro em si, independente do tema abordado, será um grito no vazio no momento em que não encontrar leitores. Porque a razão de ser de um texto é transmitir alguma coisa a alguém, sem leitores isso se tornaria impossível. Essa abordagem metalingüística onde o objeto livro se torna o foco de uma obra é interessante, por nos por diretamente na discussão da necessidade e das variadas possibilidades que o livro, a leitura e o ato criador, tanto autoral como de leitor crítico, nos proporciona.

LITERATURA CLANDESTINA - Muitos poetas jovens escolhem blogs como veículos de expressão. O que você pensa sobre essa ferramenta?

FLÁVIO O. FERREIRA - O blog é uma forma de democratizar o produto da criação, que seria a obra realizada pelo autor. Os Jovens poetas (incluo-me nessa gama) por muitas vezes são imediatistas, não passando pelo crivo da autocrítica e, acabam despejando nos blogs matérias inacabadas. Embora isso aconteça, os blogs tem sido uma ferramenta importante na divulgação do material literário de muitos autores novos e o custo é mínimo. Contudo, há riscos de apropriação indevida e plágio, caso não se tome as devidas precauções, fica impossível comprovar autoria do material publicado.

LITERATURA CLANDESTINA - Uma das grandes dificuldades para o escritor independente é chegar a uma grande editora. Normalmente ele consegue publicações mais localizadas, mas poucos são os autores que conseguem dar este salto para uma editora maior. O que você acha dessa via crusis?

FLÁVIO O. FERREIRA - Publicar um livro é uma “via crusis”. Quando independente, os custos para o autor são altos, dependendo das condições financeiras deste, ficando a mercê de patrocínios que muitas vezes não são possíveis de se conseguir. Publicar por editoras de menos expressão é como a publicação independente, em que o autor precisa se virar para distribuir os exemplares. Sair das publicações localizadas para uma editora maior é quase impossível, sendo que, estas dão preferência ao que o mercado absorve, ou mesmo o que já foi “encucado” no público através do bombardeio midiático como sendo “a literatura”. Nem sempre o que tem sido publicado pelas grandes editoras é literatura de qualidade, se é que se pode chamar de literatura. O que se pode ver nas vitrines das grandes redes é uma literatura descartável, sem profundidade. Uma miscelânea de auto-ajuda, livros místico-religiosos e uma dúzia de autores que escrevem puro e simplesmente para vender, exemplo fácil de ser visto são as trilogias, tetralogias, livros que continuam sempre num outro volume sem um fundamento lógico a não ser a intenção de vender milhares de exemplares.

LITERATURA CLANDESTINA - Uma pergunta clássica, que faço a todos os escritores que eu tenho a oportunidade de um papo. Quais são as tuas referências literárias?

FLÁVIO O. FERREIRA - Vira e mexe cito Drummond como referência literária, não tem como não tê-lo por referência. Minha cidade, Bela Vista de Minas, é limítrofe com Itabira. (Terra do Poeta, eternizada no poema “Confidências de um Itabirano”).

Tenho admiração por outros autores como Fernando Pessoa e seus heterônimos; Neruda, Maiakovski, Artur Rimbaud, Baudelaire, João Cabral, Jorge de Lima, Cecília Meirelles, Adélia Prado; estes no campo da poesia.

Na prosa, obra que acho fantástica é a de Franz Kafka, seguido por Dostoievski. Admiro também autores como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector.

LITERATURA CLANDESTINA - Durante a tua carreira já escreveste a respeito de uma infinidade de assuntos, e as epígrafes dos teus livros “Cata-Ventos” (2005) e “Itinerário Fragmentado” (2009) parece que nos permite perceber um pouco das tuas referências. Mas o teu estilo estaria dentro daquilo que hoje chamamos de pós-moderno?

FLÁVIO O. FERREIRA - Falar de estilo pra mim é algo complicado. Ainda estou num processo de amadurecimento literário, em busca de um estilo próprio, no entanto, acredito sim que “Itinerário Fragmentado” se encontra dentro do que chamamos pós-moderno. Há ali uma grande aflição, certo desconforto típico da pós-modernidade, um confronto do homem com o espaço, os valores. Um estado de desespero pela falta de referências, pela falta de crenças e ideologias a que se apegar. É um grito de um homem que se fragmenta e, cada parte de si, se perde agarrada a uma esperança vã que se desfaz poema a poema. E, se refaz, ao tomar um fôlego, indiferente aos próprios fragmentos.

LITERATURA CLANDESTINA - Teus livros têm uma trama bastante diferenciada daquilo que se praticava e daquilo que ainda se pratica hoje? Ou você é do tipo que para publicar tem que escrever aquilo que você acha que os leitores vão gostar?

FLÁVIO O. FERREIRA - Não creio que meus livros tragam alguma novidade. Tudo que lá se encontra é fruto de minhas referências; creio eu, estar trabalhando matéria velha com um ponto de vista meu. Ainda não cheguei a um estilo próprio que diferencie o que escrevo do que já foi praticado, embora também, não esteja engessado em formas e artifícios velhos. Quando escrevo não penso em fazer deste ou daquele jeito porque irá ou não agradar os leitores. Sou egoísta nesse ponto, simplesmente escrevo da forma que me agrada, caso contrário, aborto o projeto; rasgo a página, corto a linha, o verso e, esqueço que um dia escrevi aquilo. Agora, se agradar o público leitor, melhor. Sinal que o que escrevo foi de encontro com a forma como eles vêem a vida e o mundo à volta.

LITERATURA CLANDESTINA - Em entrevistas anteriores, pude perceber que nas tuas críticas literárias tem muito da sua formação, como gosto até para o Fernando Pessoa, por exemplo. Comenta.

FLÁVIO O. FERREIRA - Certamente que meu gosto literário está entranhado no que escrevo. A admiração que temos por certos autores e obras é o que, por muitas vezes, nos impulsiona a escrever mais e melhor. A nossa busca pela perfeição se dá assim; lendo e assimilando o que há de melhor. E, tendo como referencial esses gênios, creio eu, que se pode fazer algo extraordinário. Fernando Pessoa é fantástico. Um poeta de muitas faces, que incorporava multidões com seus heterônimos.

LITERATURA CLANDESTINA - Um dos meus livros preferidos é “A droga da obediência” de Pedro Bandeira. Como é para você perceber que mesmo com o passar dos anos, o livro continua atual e ainda repercute bem?

FLÁVIO O. FERREIRA - Li “A Droga da Obediência” por volta dos meus catorze anos, período que comecei a me habituar a ler. Lá era o Dr. Q.I., uma espécie de “Grande Irmão”, que desejava manter as pessoas submissas e passivas ante a realidade.

Hoje a realidade é maquiada pelo poder do bombardeio midiático, pelos efeitos da publicidade; a teletela, as silhuetas permanecem presentes e tomam força, ditando as regras e rótulos de uma sociedade desfigurada, fragmentada pela falta de ideologias. Vivemos sob uma ditadura que visa incutir uma visão cada vez mais rasa, banal e superficial da realidade. Já aceitamos tudo com normalidade, a violência, a corrupção, a morte. Nada disso nos assusta. A dura realidade se tornou um doce amargo, que embora intragável, engolimos com um sorriso de canto a outro, como se fosse natural aceitar compassivos a adversidade.

LITERATURA CLANDESTINA - E o que você pensa dos novos “dialetos” criados pelos jovens na internet?

FLÁVIO O. FERREIRA - A internet é muito dinâmica. Exige uma comunicação rápida. Quando o intuito é esse é até interessante. Desde que funcione para abreviar e dinamizar a comunicação. Num contexto literário há possibilidade de seu uso, porém, em partes, assim como as gírias e as expressões da linguagem coloquial que dá uma roupagem intrigante à literatura, tirando-a do pedestal para o chão da realidade. Os “dialetos” da internet são muito cheios de símbolos que exprimem o que um grupo tem a dizer, quase como se fosse um gueto, onde os indivíduos se expressam da forma que lhes interessa em acordo com a própria simbologia. Os “dialetos” da internet a que me refiro é o que mais se aproxima da linguagem oral, ou seja, os que são praticamente, transcrição da oralidade. Agora, tem certas expressões que me deixam de cabelos em pé: o “miguxês”, e as abreviações que mais fazem complicar a comunicação que dinamizar.

LITERATURA CLANDESTINA - Gostaria que falasses sobre o teu processo criativo. Como surgem as ideias? Onde buscas as histórias? Podemos encontrar muito de autobiográfico nos teus textos?

FLÁVIO O. FERREIRA - O processo criativo se dá por uma vontade latente de dizer algo. Surge algum questionamento sobre alguma coisa ou fato e isso vai crescendo em idéias que se chocam com valores e preceitos, vícios e virtudes que compõem a minha consciência. Chega a um ponto que acredito ter algo a dizer e isso vai para o papel. As histórias (pouco me atrevi a fazer prosa) e os poemas surgem a partir de situações da realidade, do cotidiano. Há muito de autobiográfico sim, o que é perceptível nos meus dois títulos. As vezes até brinco que se quiser me conhecer basta ler meus dois livros.

LITERATURA CLANDESTINA - Eu adorei esses seus versos do “Itinerário Fragmentado”: “Meu rótulo é a cortina cerrada, é o final da cena, o aniquilamento no escuro das coisas”. Você se sente rotulado? O que você acha dessa coisa podre de classificar a literatura: literatura de preto, literatura gay, literatura de vanguarda, literatura pop...?

FLÁVIO O. FERREIRA - Todos nós somos rotulados. Se você é escritor as pessoas já te olham diferente. Você é visto como gay, drogado, malandro, boêmio. Talvez seja porque você já está fora da “normalidade”. Se escrevemos é porque não suportamos a realidade com seus padrões e rótulos, queremos ir além disso tudo. Quanto a classificação da literatura, isso acontece porque temos o costume de segregar, dizemos respeitar o diferente, mas não perdemos o hábito de separar as pessoas e o produto de seus pensamentos.

LITERATURA CLANDESTINA - Você escreve muito sobre liberdade (ou falta dela) no seu blog Misantropia: “E, ainda me julgo livre. Que liberdade? Se não tenho disposição para caminhar. Pois prefiro ir à padaria em meu novo carro. Acha mesmo que somos livres?

FLÁVIO O. FERREIRA - Não acredito em liberdade, nem em livre-arbítrio, nem em nada disso. Nossas escolhas são feitas em função de alguma coisa “encucada”. Valores, preceitos, ideologias. Nunca há uma escolha profundamente nossa, porque não vivemos em função de nossa natureza. O que nos é natural é podado pelo racional. E, a razão é moldável. Minha consciência é moldada pelos valores que me foram incutidos. Eu sou o que escolhi ser, mas minha escolha se definiu pelo que sou. Parece loucura, ou falácia, mas não somos emancipados justamente por negar a nossa natureza. Ser livre pra mim seria negar toda essa racionalidade a que nos submetemos e abrir-se ao natural, ao instintivo, ao dionisíaco.

LITERATURA CLANDESTINA - Existem autores que para ter audiência minimizam o trabalho dos outros. Todos os outros não prestam, são pobres, não tem ética, escrevem de maneira medíocre. Menos “eles”, os com conteúdo e com amizades. Já ouvi (e ouço) isso muito. Comenta.
FLÁVIO O. FERREIRA - Acredito que quando o escritor é bom, a obra fala por si só. Não há essa necessidade de minimizar o trabalho dos outros, porque a própria obra ofusca uma obra menor. Eu não me aventuro na “crítica literária” porque é preciso ser coerente e ter uma bagagem extensa pra não ser superficial e, falar da obra alheia simplesmente por “camaradismo”, ou antipatia para com o autor. É preciso avaliar a obra por aquilo que ela é; pela relevância diante de outras obras publicadas num mesmo período. Autores, que buscam audiência através do artifício de minimizar o outro autor, querem tirar o foco de si mesmos e suas obra porque, provavelmente, os atributos (ou falta deles) que apontam no alheio é o que lhes cabe. Nesses casos, as obras geralmente estão num segundo plano de discussão.

LITERATURA CLANDESTINA - Para terminarmos gostaria de abordar uma questão cujo debate vem se tornando cada vez mais acalorado, que é o da existência ou não da literatura nos blogs. Existe mesmo uma literatura na internet, ou podemos falar de uma literatura produzida de qualquer jeito?
FLÁVIO O. FERREIRA - Há literatura nos blogs sim. Dizer que não existe é cair num equívoco enorme. O que acontece é que a internet é um fenômeno, uma ferramenta fantástica que nos possibilita disseminar informações diversas quase que instantaneamente, basta teclar e hospedar em uma página. Agora, é preciso ver como isso é trabalhado. Há muita coisa jogada de forma indiscriminada na rede, o mesmo acontece nos blogs. Há literatura de qualidade, mas há também literatura produzida de qualquer jeito. Assim como as livrarias estão cheias de pseudo-literatura (livros de mercado), há blogs em que os autores não se preocupam em trabalhar a linguagem, a corrigir os textos. Os blogs tem se tornado um ferramenta tão importante, que autores de renome internacional estão vindo para rede e, exibindo parte de seus trabalhos na blogosfera.

O que acontece com os blogs é o que já dizia Schopenhauer(em “A arte de escrever”) sobre os escritores de sua época: “há três tipos de autores: (...)os que escrevem sem pensar, os que pensam enquanto escrevem e os que pensam antes de se por a escrever. Ou seja, escrevem porque pensaram.” Isso se dá com os autores dos blogs, muitos publicam seus textos sem passar pelo crivo da autocrítica e, muitos desses nem referencial possuem para um auto-avaliação da própria obra. Isso certamente gera desconfiança em relação aos blogs, mas não confirma a tese de inexistência de literatura nos mesmos, porque em contrapartida há muita coisa de qualidade, de autores que pensaram para escrever.

Comentários

  1. Páscoa, momento de únião, de parar para refletir, de ver a vida diferente, de ver gente como a gente.
    Jesus morreu e ressucitou para mostrar ao mundo o verdadiro sentido da vida.
    Amou-nos numa cruz.
    Feliz páscoa.
    Um abraço no coração ♥

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