Cronicazinha inútil

14-03-2010
Flávio O. Ferreira


Não sabia que era tão difícil ser gente grande. Se o soubesse antes, pediria para ficar miúdo; menino entre os outros a correr atrás de sonhos e bolhas de sabão. Rabiscando mil palavras ocultas em códigos inexplicáveis no chão de terra do quintal dos fundos. Pediria para permanecer menino, brincando de esconder nos quintais vizinhos; roubando frutas frescas nos eternos pomares de minha infância.

Se soubesse o quão angustiante é ser homem feito, pediria pra continuar um calça-curta a jogar bolas-de-gude e soltar pipas; a cobrir a cabeça com o cobertor por ter medo de escuro e, descobrir-me repentinamente, devido o escuro também estar dentro dele. Pediria para todo homem ser menino. Que os amigos nunca se afastassem. Que a vida nunca fugisse de nosso domínio. Que todos os dias fossem domingo, ou feriado, ou dia santo, para poder brincar na praça, ver a banda passar. Que todas as festas fossem de congado ou marujada, reizado ou folia. Que todas as manhãs fossem de sol com chuvas leves à tardinha. Que todo o tempo fosse primavera, enfim.

Ah! Se eu soubesse como é ser grande e nos ombros um fardo a carregar. Se eu soubesse como é ser homem e suportar a dor de viver. Pediria eternas manhãs de canários, bem-te-vis e pintassilgos. Insistiria em meus tempos de moleque a andar no mato e ver o sol no primeiro instante da aurora avermelhando as montanhas que circundam o meu lugar primeiro. E, não amargaria estas noites de insônia na distância dos dias, sendo corroído por essa melancoliazinha latente a que chamamos saudade.

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