Poema



Que importa o universo e a sombra
Que assombram o homem
Se seu princípio estabelece um inevitável final?
Não sou verve fervilhante
Nem o fatal desejo da alma de se desgarrar deste saco de carne e ossos
Que perambula pelas ruas desertas em noturnas horas de desespero.
Não navego, por ser impreciso,
Por ser impossível navegar sobre montanhas
Onde o mar não alcança minhas mãos
Nem minhas mãos alcançam seus cabelos
Na ânsia de navegar pelo teu corpo, buscando horizontes em outros portos,
Tentando atracar entre seus seios.
Navegar é preciso,
Mas a turbulência deste mar
Tem o vigor de sortilégios
Enquanto meu maior desejo é naufragar em uma única onda.

Que me importa o universo e a sombra
Sendo assombrado pelos mesmos fantasmas
Sendo o mesmo ser errante na noite escura
Desvendando os mistérios que a rua dita
Contando as notas de minhas dívidas?
Ah... pobre patrício! Pensas que a poesia vale a pena,
Mas tua pena é tamanha,
Perpétua maldição de se ver sozinho entre as frases perfeitas e as rasuras da vida.

Não navego por navegar,
Nem remo contra marés que sobem além do bojador
Navego ao ritmo de minhas neuroses
Mergulhado em crises sonâmbulas
Que prescrevem o nível exato de loucura em que me encontro.

Me assombro se há verve ou alma
Se a dor que me invade é como um enorme tufão
Ou um simples desgelo casual no Alaska
Ou a devassa de uma tempestade tropical
A levar-me como barco
Ou simples objeto sem valor
Que se perde na imensidão do mar
De montanhas que navego em minha nau de pedra.

O quê que há?
Que rios, barcos, mar?
Se há apenas silêncio e vento
A quebrar nas persianas da noite?

Que navegante sem porto haverá
Onde não há oceano nem mar?
Somente uma rua de encontro ao cemitério,
Onde o átrio de entrada lembra-me de onde vim:
“Lembre-te que és pó”
Lá... Onde os mortos se curvaram,
Onde os mortos se calaram,
Onde a noite não tem mistérios!

Comentários

  1. Poema bom Flavião, o desfecho é perfeito.

    Grande abraço.

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  2. eu também não navego por navegar, querido!!!

    obrigada por sua visita e volte sempre que quiser

    beijos

    MM.

    ResponderExcluir

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Flávio O. Ferreira

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