IV


IV.

Oh, Maiakóvski! Que ânimo te arrebataste
Desta vida estúpida?
Que verme atravessara-lhe a alma
A corroer todas vossas esperanças?

Ah, meu caro poeta, seus versos traduziram
O espírito de uma época...
Teu grito, tua voz ecoaram na revolução.
Mas, onde foste?
Que miserável sentimento tomara conta de ti?

Não compreendo! Lançaste sobre vós,
Sobre vosso próprio corpo, toda a ira,
Todo despropósito em viver.

Oh, meu amigo, por que puseste uma bala
Em teu próprio peito?
Que motivos, que revoltas, que amores?
Tu foste homem, foi poeta.
Decidiste com coragem seu próprio destino,
Escreveste com a pena vossa própria pena,

E eu? O que faço de minha vida?..
Não sou tão homem, nem tão poeta,
Encolho-me sob minha casaca,
Escondo-me nas multidões,
Sou mais um, enchendo o papel de palavras,
Gritando meus silêncios e mais nada.

Ah, meu irmão, meu camarada...
Se houvesse em mim uma gota de coragem
Chegaria “às vias de fato”, esmagar-me-ia, pois.
Mas, não sou grande como vós,
Nem tenho, sobremaneira, vossa postura,
E, meus versos são calejados, inspirados
Na insatisfação que é a vida: que vida!

Ah, se pudesses me ouvir!
Que conselho me darias, proletário poeta?
Há tempos a vida perdeu a cor e razão
E minha inspiração está no enfado, no tédio.
Não encontro sentido na revolta, na luta,
Tudo se transformou em uma névoa obtusa,
Numa escuridão infinita, que nem percebo
O brilho da vida.

Sim, terei um dia, no desconsolo de um quarto
Escuro, a hombridade de silenciar-me.
Calarei para sempre esta voz
Que insistente vos declara minha covardia;
E, quando cessar-me de ser covarde,
Não haverá tempo para ter coragem,
Pois minhas mãos, tremendo de velhice,
Aceitarão, resignadas, a loucura que é viver
À espera da morte.

Comentários

  1. Anônimo5:51 PM

    Olá Flávio, parabéns! Gostei muito do seu blog. Abs do Josealoisebahiabhzmg (josealoise@terra.com.br)...

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  2. merecida homenagem a maiakowski.

    sei porque os poetas suicidam. nós sabemos. o fardo tem hora que é ilimitado. é caco de vidro e foice.

    abração.

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  3. Cara, um dos melhores dos teus poemas. Uma ponta de tristeza perspassando todo o texto - mas o assunto é pedreira, algo certamente inevitável: um dos gigantes, dos maiores poetas terminar assim... O que resta é lutar e resistir. Hasta la vitoria!

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  4. Saiu do manufatura? Avise-me de sua situação, por favor.
    Gostei de seu espaço.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Olá Flavio com já havia dito não gosto muito de ler mas as suas poesias que saõ bem grandes me faz tomar gosto pela leitura prabéns vc escreve muito bem.

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  7. Grande poeta! Maiakowski é um dos meus poetas favoritos. Um poema antológico, digno de se fazer um sarau ou estampá-lo nos muros das cidades!
    Parabéns!

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