Suspiros da Carne


....Acordei agora de um sonho ruim. Estava mergulhado numa nuvem de poeira de alumínio e, aquele pó cinzento entrava por minhas narinas, minha cabeça se agigantava e o cérebro começou a escorrer pelos orifícios. Instantaneamente minha cabeça explodiu, espalhando sangue por todas as paredes do quarto. Quando abri os olhos, meu nariz escorria sangue. Deve ser paranóia, mas não suporto dormir com a cabeça tampada. O dia está muito claro e, o facho de luz que entra pelas persianas não me permite dormir. Os olhos ardem, mantendo uma vermelhidão inexorável. Dói-me o corpo, os membros que me compõem, a cabeça. Dói-me inteiramente. Sei que parece absurdo, preferiria mil vezes acordar em um puteiro. Mas não. Resumo-me a isso. Um trapo humano se arrastando pela manhã. Acordei e não consigo dormir. A noite fora longa, longa demais para meus olhos exaustos. E, só agora durmo o sono que por hora deveria se concentrar na escuridão, afinal, noite foi feita para dormir, quiçá, para o sexo. Não possuo nem um e nem outro. Nem a noite, nem o sexo ha muito desejado. Quando muito, me entretenho com umas revistas velhas, encardidas. Imagens fictícias de bucetas que não penetro. Apenas minha mão se locomove sobre meu membro e, o gozo é infértil, perde-se na latrina, some pelo ralo do banheiro imundo. Aquele cheiro de porra fica entranhado no chão, a mão também fede. Volto a dormir. Volto a sonhar com dias mais tranqüilos.
....Escrevi a meu pai que me espere. Volto para casa no próximo verão. Espero quitar todas as dívidas, venderei meus livros, minha coleção de discos. Venderei tudo que possa pesar minha bagagem e, vou voltar correndo. Não tolero esta atmosfera pesada, esta habitualidade em desabitar. Não suporto os olhares que se movem em minha direção, parecem aprisionar-me numa redoma. Quero sair ileso, isento de prejuízos. Quero acomodar-me em uma pedra bem alta, onde o salto seja longo e a aterrissagem breve. Estou fora de mim. Sempre estive, porém a cor se faz mais nítida. As certezas me reencontram, penetram-me as vísceras, mastigam-me os órgãos como vermes. Não. Não estou louco. Apenas não estou bem. Há muito tempo não estou bem. Engana-se quem acredita que meu estado é sóbrio, nunca o fora, nem agora. Vivo de migalhas. Vivo lambendo o vômito dos cães ou dos bêbados. Ainda vivo. Há quem diga veementemente que vivo bem. Mentira. Como mal e não durmo lá essas coisas. O dinheiro do orçamento é o bastante para não endividar-me muito, mas não supre minhas necessidades mais doentias. Enchi a estante de livros raros que comprei em sebos, o quarto ficou cada vez menor diante do número exagerado de discos que adquiri num bazar. Ah! Obsessão doentia. Ouço Wagner submerso na escuridão do quarto. Vagueio. Sonho uma vida vagabunda. Vejo-me debruçado sobre uma escrivaninha inventando tipos, estereotipando imagens, narrando histórias ininteligíveis. Não passo de um louco. É mais fácil traduzir minha revolta. Enfim, terminei meu segundo livro, está fascinante. Mais uma vez enveredei-me na poesia. “Ossos no fundo da masmorra” é o título. Poemas metafísicos. Estou assim ultimamente, fora da matéria, numa supra-realidade que vez ou outra me comove. Enviei os originais a algumas editoras que responderam instantaneamente: “lamentamos, mas não publicamos este tipo de literatura.” Lixo! É o que eles pensaram. Ainda se dissessem abertamente que não é viável a publicação de poesia, ficaria menos chateado. Mas dizer “este tipo de literatura”? Não. Inaceitável. Ainda resta esperança. Três editoras não responderam, devem estar analisando a obra, apego-me totalmente a esta possibilidade e espero, espero, espero...
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....Meu verbo amofina-se. O desespero é a medida da esperança. Espero em vão. Corro ao quarto escuro, sob os lençóis contorço-me como um feto. Recolho-me sobre a pele, sobre o cobertor, entre paredes mofadas que me isolam do mundo. O espírito é impelido a uma multiplicidade de pensamentos que me enlouquecem. Talvez Sofia tenha razão. Estou obcecado. E, minha paranóia se intensifica. Faz seis meses que ela se foi e ainda não consegui desgarrar-me. Era tão dependente, que ainda a vejo entrar pela porta sorrateiramente, sob aquela peça única de seda transparente, seus mamilos despontando sob o pano e, a silhueta de seu corpo desfilando pelo quarto. Sua dança incendiava-me. Meu refúgio eram suas delícias, fugia do mundo, sentia-me completo.
....Ela foi embora dizendo que não dava para ser assim. Minha paranóia lhe perturbava, não era o que queria. Não quis assumir um compromisso, contrair matrimônio seria o último dos males e, ela não aceitou. Era como todas as outras; queria toda depravação que tinha a oferecer-lhe, mas queria de papel passado, véu, grinalda e tudo que dizia ter direito. Novamente me vi só. Minhas buscas se tornaram freqüentes, queria compreender a dimensão do que se passava na cabeça de Sofia, mas ela recusou me ouvir. Bebi. Comprei um revólver a fim de dar cabo da vida, porém sou covarde demais pra buscar a morte com minhas mãos. Meus desvarios passaram e, agora percebo que o que mais amei em Sofia foi sua capacidade de abrir as pernas nos lugares mais inusitados. Amava sua ousadia. Amava quando se prostrava diante de mim dizendo-se adoradora de meu membro sagrado e, beijava-o impetuosamente. Gostava mesmo era de seu instinto de puta, sua animalidade transtornada, seu desejo de me engolir inteiro. E, trepávamos todos os dias, todas as horas, todo instante em que nossos corpos insistiam em nos chamar a alcova. Afundávamos neste abismo de luxúria. Ela me deixou só, com duas mãos exaustas. Não escrevo mais. Tudo que me sai é depravado. Tornei-me um depravado. Durmo com as putas da rua de baixo e acordo com elas. Meus dias se resumem a isso. Noites pérfidas em uma loucura tão minha.

Comentários

  1. Anônimo5:35 PM

    Gostei,Flávio. A solidão leva a sonhos extravagantes e ao caminho de puteiros, ou à frustração de uma "punhetada", por melhor que esta seja. Um abraço. Francisco Dantas (assis_dantas.zip.net)

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  2. Anônimo12:50 AM

    Muito lindo aqui,nota-se que foi feito com muito carinho.Continue assim...beijos com carinho !!!

    By Pekena...

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