Um retrato imperfeito de Januário

......“Num se arrelie com minha sina não, moço” – disse sussurradamente – “a vida aqui é assim mesmo, uma tristeza só: morte é libertação”. Assim conheci Januário há uns cinco anos numa viagem pelo nordeste, numa região onde a seca destrói as vidas, lá estava ele, resistindo. “Aqui a gente morre de qualquer jeito, seja morte matada, seja morte morrida de doença, num se espante não, esse é um povo condenado. Ou a gente foge ou é engolido pela terra e pelos donos dela. Eu morro em breve. Meus dias estão contados, nem me preocupo, morte é libertação, num disse?”
......“Sinhô que é da cidade, costumado com aquela agitação toda, nem deve de perceber quantos morrem por lá, de fome, de violência, mas têm muitos dos daqui lá sofrendo pasmaceiras, violentados pela indiferença.” – desabafava Januário. “Pode parecer loucura minha, mas viver é uma calamidade só, ainda mais vivendo num lugar perdido como esse, terra de ninguém, um lugar onde nem Deus nem o diabo querem estar. Aqui é a lei do mais forte que prevalece, ou você bate, ou apanha. Tenho apanhado faz anos, mas dou meus sopapos também”.
......“Nasci em ‘Esperança’, um lugarejo pobre, como todo o sertão. ‘Esperança’ só no nome moço. Era o segundo de sete filhos, morava numa paioça com a mãe e o pai, ele cuidava do canavial do Coronel Vicente Brandão. Vivíamos por ali, sem muito conforto. Para dizer a verdade, numa desgraceira só. Ele passava o dia inteiro sob o sol escaldante, vida sofrida, cortando cana. Recebia quase nada. E gastava com cachaça ao fim do dia. Chegava em casa bêbado. Batia na mãe e em cada um dos filhos, como quem vingasse sua sina de sofrimento. Depois dormia”. Januário me contava sua história com os olhos fixos no horizonte. Parecia ter a necessidade de contar a alguém suas desventuras e, talvez, diminuir assim o seu fardo. Seus olhos possuíam uma luz diferente. Sabia da proximidade da morte, mas não tinha medo. A certeza da libertação dava a ele o comedimento de quem nada teme em circunstância alguma. Ele continuava seu monólogo. Eu o ouvia.
......“Com a morte do velho Vicente Brandão dono da fazenda, seu filho assumiu e veio como uma ave de rapina sobre a carne macerada. Meu pai, ignorante, já não obedecia às ordens que eram dadas. Brigava com o novo patrão que o ameaçara. Ele duvidou, até que apareceu lá em casa, se arrastando pelo chão feito uma cobra, nos minutos finais de vida após tomar dois tiros a mando do patrão”.
......“Todos ficaram aterrorizados, embora aliviados. Não iríamos apanhar naquela noite. Feito o velório, enterramos nosso pai no pequeno cemitério ao lado da capela de São Judas. As lágrimas só rolaram em nosso rosto quando avistamos a paioça em chamas e, os homens do patrão dizendo o quanto não éramos bem-vindos ali. Saímos em silêncio sem um nada na mão. E viemos parar aqui em ‘Cruz das Almas’. Aqui foram morrendo meus irmãos mais novos. A fome não perdoa. Enterramos todos no cemitério de ‘Santo Expedito’. A mãe vivia pelos cantos, perdia a ânsia em viver. A angústia tomou conta de seu coração. Vez ou outra estava perto do fogão-a-lenha com o olhar perdido, olhando para o telhado, observando as formas esculpidas pela fumaça nas telhas. Um dia a encontrei ali mesmo, suspensa, na ponta dos pés, dançando no ar. Suicidou”. Januário se calou. Um abismo se abriu entre nós. Nada podia ser dito. Não demonstrava sofrimento, seu olhar parado não revelava nenhum sentimento de dor, angústia ou compaixão. De repente, voltou a falar, pausadamente desenhava sua vida diante de meus olhos, numa narrativa precisa mostrava-me porque não temia a morte, pois convivia com ela. Lutava com ela como alguém que luta com uma fera. “Aqui no sertão a gente morre de fome, de doença ou de ódio. Olha moço por esta janela. Estas terras estão manchadas de sangue. Sangue de gente inocente. Sangue de gente ruim. A gente lava a honra aqui é com sangue. Senti uma mistura de ódio e angústia ao ver minha mãe ali suspensa nas garras da morte e, prometi cobrar o preço de nossa desgraça. Fui à procura de nossos algozes. Um a um eu matei. Procurava lutar, corpo a corpo, ganhava todos, sangrava-os como porcos. Derrubei todos os capangas da fazenda e entrei sorrateiro durante uma noite de lua cheia e muita nuvem, precisava cobrar o sangue de meus irmãos e de minha mãe. Encontrei o sujeito sentado em uma rede, sobressalto levantou-se e veio para cima de mim encolerizado. Fazendeiro é tudo metido a valente, mas quando comecei a empreitada contra ele, sentindo que não havia nenhum capanga, deu-me um sopapo e saiu disparado pelos corredores, corri atrás, e ele fugia. Saiu pela porta do casarão atravessou o terreiro e entrou no mato. Corria. Nunca quis matar com covardia. Preferia uma boa briga a ter que pegar de surpresa, mas o covarde fugiu. Fui atrás. Embrenhei pela caatinga, singrava o caminho entre os mandacarus. Sempre atrás do vulto que corria na escuridão. Percebi que não o alcançaria, saquei mão de minha arma e num único tiro derrubei o vulto que levantou poeira ao tombar. Virei as costas para o corpo estirado no chão. Certo de minha pontaria fui embora. Na semana seguinte recebi informação de que havia morrido. Fiquei aborrecido por ter sido assim, mas o feito estava feito. Com o passar dos dias recebi ameaças. Mas não ligo não. Um dia a gente mata noutro a morte nos vem de recompensa. Decidi não sair da região. Não vou viver fugindo. O que tiver de ser vai ser, sinhô sabe.”
......Olhei profundamente nos olhos de Januário. Sem uma palavra. Nada poderia dizer. Um assombro me tirava as palavras. Percebendo isso ele disse: “num me olhe assim com este jeito de desencanto não moço, num sou uma alma ruim não. Foi maldade o que fizeram com a gente. Apenas cobrei o preço do mal que nos fizeram, e, diga pra mim, lá é bom ver seus irmãos definhando ou encontrar sua mãe pendurada no batente da porta? Não, isso não. Era preciso vingança, ou o ódio me matava”.
......Falei poucas coisas ao Januário que me compreendeu. Tomei o último gole da cachaça oferecida pelo vendeiro e fui embora pela estrada. Pensava em tudo que escutara. As imagens viam-me nítidas. Dentro de mim uma mistura de revolta e de gratidão. Revolta pela vida desgraçada que existe por aqueles lados. E gratidão ao Januário. Acabara de me dar uma bela história a ser contada na volta para casa. Já na cidade todos queriam saber os meus feitos pelo sertão. Se havia conhecido algum jagunço, algum sertanejo, se havia ficado sem tomar banho. Falei de muitas coisas, inventei muitas histórias. Não revelei a história de Januário.
......Passado algum tempo, Januário passava dos trinta e sua descrença na vida o levava adiante, andante sem rumo. Há muito tempo havia perdido sua fé nas coisas, e deixado de lado às coisas da fé, mas por força do hábito se persignara diante da Capela de Santo Expedito. Apeou do cavalo amarrando-o ao portão do cemitério, transpassou o portal imenso onde a inscrição – Lembra-te que és pó – não o incitara nenhum pensamento. Januário trazia em si a feição queimada de sol, aquele ardume de quem cavalgou por horas sob o sol escaldante, o cansaço estampado na face e um sorriso desconfiado, medido e sem dentes. Aproximou-se a passos lentos de uma velha sepultura com inscrições semi-apagadas – falou sussurrado: “o feito está feito podem descansar em paz”. Ergueu o corpo, e nem teve tempo de se virar. Uma bala viajou no espaço, um tiro certeiro em suas costas. Caiu de joelhos, olhou para o céu que trazia um azul de doer os olhos, respirou o último ar daquela terra seca, daquele imenso deserto de desgraça que fora sua vida que acabava ali sobre as sepulturas.

Comentários

  1. Boa noite, querido Flávio!
    Fico muito grato em recebee-lo em meu blog, e feliz pela apreciação e mensagem postada. Alegro-me a cada troca poética realizada, entre amigos reais ou virtuais. Sinta-se sempre convidado!
    Contextualizando esse post, gostaria que, também, visitasse um diário que fiz e no sertão baiano: http://www.felipecarvalho1000.blogspot.com/
    E, parabéns! Pelo blog e pelas ricas mensagens apresentadas nessa pagina. Muito prazer!
    Abraços

    Felipe Carvalho

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