A Fome




E o céu se abriu. Outrora do alto vinham línguas de fogo da besta do apocalipse a lamber o chão ressequido. Agora o céu despejava a breve esperança de salvação. Uma ave atravessava as nuvens despejando o maná que a alimentaria por uns dias e, quem sabe, semanas. Desequilibrada caminhava em meio a muitos outros corpos, eram trapos imundos, se definhando naquele deserto onde a ave-bala derrubava corpos rotineiramente. Aqueles eram os remanescentes de um tempo de fúria. O sol causticante, a guerra, o caos eram seus eternos companheiros. A vida era sinônima de descaso, não conheciam um palmo além de suas fronteiras, não importunavam, porém, eram inoportunos aos estrangeiros. Tratados como o lixo no quintal do mundo e, nem sabiam que aquela ajuda que vinha do céu apenas adiava a salvação, pois ninguém os libertava de vez da miséria, jogando-lhes as migalhas que sobravam das mesas fartas da produção em grande escala que haveriam de se perder nos silos à espera de preços rentáveis. A perda era inevitável. Os preços baixavam e grande parte dos produtos agrícolas apodrecia. Era hora de preparar o concentrado e enviá-lo em ajuda humanitária ao outro lado do mundo.

O som do jato cortando o céu chamava a atenção. Um clamor subia do deserto e, os mesmos deuses que outrora despejavam bombas vinham agora saciar a necessidade daquele povo em seu opróbrio. A decência era a mesma infâmia. E, os pacotes despencavam do céu sobre os pobres homens que o atacavam com voraz necessidade recolhendo a ração que lhes era destinada. Os grãos se misturavam à areia. Tudo era recolhido sem cerimônias, sem pudor ou repugnância. Comeriam aquele dia, era certo, mas na manhã seguinte não se sabe. Uma mulher se aproximava do grupo se arrastando em pernas que mal sustentavam o corpo. A euforia e loucura de outro pacote que se despedaçava em outro ponto do deserto fizeram com que a multidão de trapos se virasse e iniciasse nova correria. Exaltados passaram por cima do trapo humano que tentava alcançar um pouco do maná caído do céu. Caída no chão ficara, a respiração sôfrega, o sol a penetrar-lhe a alma através dos rasgos na pele. O seio pendia murcho, fonte seca, incapaz de alimentar os filhos. Na cabeça ecoava o desespero e a certeza de que não teria chance de ver o filho e alimenta-lo com um pouco daquela ração que os deuses presentearam.

Nunca pudera ver vingar um rebento de seu ventre. Morrera o primeiro em poucos dias de vida, o segundo resistira bravamente por dois meses e, agora, este já completara dez meses numa luta exaustiva por sobrevivência. Não se enganava. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, aquele filho também iria se consumir no tempo, se esvair como os outros, mas sentia necessidade em adiar um pouco mais esta inevitável separação. Lembrou-se do primogênito que nem força tivera para sugar aqueles seios murchos e, das ínfimas gotas de leite que lhe brotavam das mamas naquela boca miúda. Tivera-o por um longo dia nos braços. O último suspiro fora um gemido estranho de quem abandona a casca que lhe compõe. O segundo deixara o corpo com a mesma inocência do primeiro, embora de forma mais sofrida. Parecia se conformar com a vida em sua escassez, que resistia heroicamente. Até que numa noite em que o sono tomara conta de todos, se despedira silenciosamente dos sofrimentos terrenos e fora ao encontro do paraíso que não aprendera a crer. Agora, lá estava o terceiro à sua espera e, quem se despedia do mundo era ela. Não poderia levar aquele seio murcho àquela boca que ansiava sugar o leite e o sangue que lhe fortalecia por estes longos meses. A vista escurecia aos poucos e o pensamento ficava naquele corpo franzino que, diminuto, mal ocupava os braços, morria ela no deserto e ele por sua ausência. Morriam, ambos, devido a fúria de deus, dos homens e da natureza que os colocara num deserto imenso de ignorância. A multidão nem olhou para trás. Foram destruir o outro pacote, seus olhos não permitiam distrações, apenas auxiliava-os a recolher a ração misturada a pedregulhos e areia.

Comentários

  1. célia1:02 AM

    Tenho a impressão de já ter lido este texto e ele é muito bom. Vc já o havia publicado?? Um grande beijo

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  2. questionador, crítico e real. araxá já tá cheio de gente pedindo esmola brou. meninos nas casas lotéricas, vi isso hoje. tua pegada aqui faz muito mais que sentido.

    abração.

    Cássio Amaral.

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  3. Dizer das dores da alma e das dores do corpo é alertar,criticar nossas emoçoes diante do que vivemos,criamos,fazemos ou nao fazemos. A poesia é reveladora(protesta´pode nao mudar o mundo com armas,mas muda(talvez)pela consiencia....um dia. Nao outra foprma de dizer desse incomodo da vida:suas miserias sociaos,sobretudo,senao denunciado pela açao politica ou pelas artes.A arte nao é inúltil(sempre éla é cooptada ou censurada)dependendo da ideologia da hora.Assim,que usemos a arte da palavra para dizer desse incomod pode perturbar mas jamais ignorar a realidade bruta.Falar do amor a dor é necessidade da alma do poeta.Muito bom.Abraço.

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