Esculhambação


Tem dia que dá vontade de dar tiros no escuro. A intenção é acertar aqueles que insistem em se esconder à sombra da mediocridade. Meu medo é o tiro sair pela culatra e a sombra ser de meu corpo estatelado na sarjeta, sem dinheiro nem gorjeta para o garçom que me servira o drinque de cicuta.
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Tem dia que a vida parece absurda e, viver parece um dilema ao qual estamos todos condenados. Tem dia que a palavra me sufoca. Aquela palavra que nunca digo. O medo de dizê-la me corrói, embora, dizê-la não fará de mim um desgraçado.
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Dia após dia vou tentando convencer-me que dinheiro não é tudo, porém preciso pagar a luz, o aluguel, o supermercado, o açougue, a padaria, minha camiseta, meu computador, meu preservativo e, até a água que bebo. Inevitavelmente ele me escravizou. Fizeram-me crescer acreditando que sem ele eu não vivo, nem mesmo sobrevivo em meio à multidão. Mentira, mentira, mentira. O problema é que, como todo mundo, eu quero regalias, exageros, frivolidades. Sou sujeito fútil, consumista compulsivo. Quero ter carro, casa, família, escola, propriedades, reinado, TV de plasma, escravos... tudo que o dinheiro compre. Comprar, comprar, comprar: eis o verbo que me coordena e, assim, me condena. Sou tolo, mesquinho. Menino ante o pote de doce a lamber os lábios. Adulto entusiasmado em restaurante fino, pagando caro por comida pouca. Sou furão, paparazzo, repórter de revistas de fofoca, arte de fazer dinheiro. Sou corpo vendido, bocas, seios, vaginas... tudo em liquidação, em capas de revistas para marmanjos se masturbarem em banheiros escrotos, deixando chão, mãos, latrinas sujas de porra. A lei é vender, lucrar, comprar, consumir. Girar o Capital, girar mercadoria. Lucrar, comprar, vender, escravizar, possuir.
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O conceito que se constitui no manifesto da pós-modernidade é: tenha tudo, obtenha tudo. Comprem o que é descartável, comprem o que é detestável, mas comprem, comprem sempre.
Comprem batom, avon, esmalte, decalque, recalque, cd, tv, patê, pavê, e.t.
Comprem o mundo
Comprem Deus ou uma igreja
Comprem lote no céu ou um cu
Um pedaço da lua ou marte
Comprem mãe, filho, pai, mulher, irmãos.
Comprem surfistinhas; amantes de senadores.
Comprem a puta-que-pariu.

Comentários

  1. estou amando te conhecer um pouco mais.. saiba que és grande poeta e teu futuro é brilhantíssimo

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  2. UHU!! Forte, verdadeiro e pulsante como as veias de concreto e dor de nossas cidades...qdo vc tiver um tempinho, espie meu blog...tenho um poema "Desejo insano" que fala um pouco dessa sua inquietude...visitarei sempre,
    parabéns,
    :)

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  3. ahã...tinha de ser de Minas.... que fábrica de poetas vcs tem aí menino?? Deve ser o pão de queijo ou a "cana", rs,rs...
    Minha mana, que é gaúcha, tá morando em BH, então me sinto sua "vizinha", que honra:)

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  4. Como sempre arrebentando, meu amigo,

    Desde que li "Um homem fragmentado"
    vejo que seus textos estão prontos
    para esclarecer, lutar e sinergicamente ajudar a romper
    as barreiras que temos por aí,

    parabéns,

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Flávio O. Ferreira

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