(...)

Não! Não há solidão maior que a solidão da morte, ou há? Não sei. Ainda não morri, nem ao menos estive a beira de deixar esta vida. Mas, que vida, se esta parece tanto com a morte, em suas ausências e angústias? Não me diga que caminho percorrer, pois não tenho pressa em chegar. Seu caminho não é o mesmo, nem o meu se reflete em teus passos. Sou lobo solitário. Não preciso de multidões ao meu redor, sou a própria multidão. Uma legião de corpos. Olhares que se encontram e se abismam. Sou descendente do caos e da guerra, herdeiro de um tempo de absurdos. Aurora de um século de escuridão. Conto os dias como quem conta palitos ou coleciona ossos, não os do ofício, mas os da arqueologia de si próprio. Tento encontrar uma razão, ou explicação que evidencie a realidade, mas a vida é fictícia. De repente se é levado pelos ventos de um chamado destino, ou pelas vontades de um Deus que construímos. Todos os passos parecem amarrados, centrados em uma única realidade a qual não se pertence. É preciso acreditar. Criam-se crenças, necessidade em explicar o inexplicável, e exprimir o inexprimível. Uma única verdade, nossa fraqueza em assumir nossa fragilidade. Fragilidade de homem que não tem futuro. Fragilidade de homem que tem por única certeza o seu final. Perecer. Sem margem de dúvida. Único destino.

Assim, seguem se os dias. Tira-se das costas a responsabilidade de viver e, vive-se a mercê de destinos e vontades, de deuses ou de entidades sobre-humanas, pois nossas forças não suportam o fardo. Que fardo? O do esquecimento? Sim. Fecho os olhos e, caso não pense em nada, a única coisa que posso ver perfeitamente é a profundidade do abismo. A este nomeio escuridão. As noções da morte vêm-me daí. A vejo apenas como esquecimento, vazio, aniquilamento, ausência. E, nada que me arremeta a paraísos, mundos fantásticos vindouros.

Caí neste mundo, mal podia decifrar as cores e sons, impuseram-me as mãos e um Deus. E, um fardo a carregar. Um fardo original cujo preço é a morte. Ensinaram-me a vigiar, pois a morte é como o ladrão que chega em silêncio. Inesperadamente chega. Em meus ombros, toda a culpa pesara como um madeiro. Não vacilei. Vigiei. Carreguei toda culpa em viver. Não vivi, e irei morrer. Sim, morrer. Porque assim como a culpa original tenho minha sentença. Esta foi dada no princípio das eras. Não há quem modifique, não há recurso, nem apelação. Foi batido o martelo. Sou réu condenado sem direito a defesa. O que mais dói é saber que o mesmo ar que me dá vida é que me aniquila. E, o tempo é cruel companheiro, cada minuto que passa é um minuto perdido para eternidade. A ampulheta da vida não pode ser invertida ao fim da areia do compartimento.

Comentários

  1. cássio amaral8:06 PM

    Puta texto brother.

    Muito bom!!!

    A morte está na vida e a vida está na morte. Inquietação e questionamento muito bacana que você trouxe aqui.

    Grande abraço!

    P.S. Tem um trem novo no meu blog. Pinta lá quando tiver afim e puder.

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  2. Meu querido... realmente, fizestes uma viagem pela vida e pela morte... soubestes demonstrar em precisas palavras as inquietações de muitas mortes que temos a cada minuto perdido! Quiçá nos levantemos de nossos pousos contínuos para podermos não perder mais tempo em viver completa e perenemente! "Seize the day! Put no trust in the morrow!" Beijocas estaladas!

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  3. Offer adorei este texto

    e o pema Insano tb

    A morte anunciada e a eterna solidao...........

    será que isso nos persegue,

    vivo aqui mas tb em solidao

    beijos,

    tem poema novo no ar

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  4. Oi, Flávio.
    O Cássio fala sempre de você.
    E eu já visitei seu blog algumas vezes. :)
    Gostei de como escreveu sobre a dualidade do tempo: morte e vida.
    Um beijo,
    Priscila

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