***a preguiça

Alguém diz que o maior mal é a preguiça – discordo veementemente – talvez por ser preguiçoso ao extremo, mas existem males maiores. Talvez o maior mal esteja na arte de domar homens. Manipular suas idéias, inserir-lhes concepções, desarticulando a natureza, própria do homem. Contumaz, seria eu a defender teorias não minha, mas que, no entanto fazem sentido. O homem não nasceu para mediocridade, para se esconder por detrás de artifícios indolentes que o tornam um fantoche nas imensas mãos do dono do universo. Impossível aceitar que tudo já está escrito – não seria esta uma forma de preguiça? – Sim, a preguiça de transformar é maliciosa, mas o homem é induzido a se manter estagnado, entregue à boa-vontade das forças divinais. Se já está tudo escrito, o melhor é sentar numa pedra e esperar a vida passar que ocorrerá da mesma forma, seria como se entrássemos num barco e não precisássemos remar. Quando toquei no assunto do direito a preguiça recebi de cara aquele clichê de que preguiça é um mal e que o trabalho dignifica o homem – logo me pus a questionar: Serão sábios aqueles que pregam sermões em favor do trabalho, dizendo ser este o ponto de elevação da dignidade do homem? Diz-nos o dicionário que, dignidade é honra, honraria, respeitabilidade... Seria este o reflexo de uma sociedade que discrimina quem não trabalha? Seria este o motivo pelo qual o aposentado é tão desvalorizado? Ou na verdade, é apenas um artifício do sistema em excluir, desprezar quem não tem valor produtivo? Os detentores de grandes riquezas apenas exploram a massa falida de operário que depende do trabalho para realização de suas necessidades mínimas de saúde, educação e lazer. E, estes por dependência acabam se deixando levar pela exploração, que parece mínima quando se coloca em voga os benefícios e bens atribuídos ao trabalho realizado. O trabalhador esquece que junto à força de trabalho, ele vendeu seu tempo e saúde, sendo que, por merecimento deveria receber três vezes mais do que realmente recebe. O mais estranho nesta transação comercial entre operário e empresa é o fato do valor estipulado para o produto vendido ser taxado pelo contratante do serviço, quando na maior parte das transações comerciais, quem põe o preço é o detentor do produto oferecido. O maior motivo para isso ocorrer é a grande massa falida que aceita por qualquer preço uma oportunidade de trabalho. Aí surge a pergunta: Onde há dignidade nisso? Voltando aos significados – onde há honra, autoridade e respeitabilidade, se o que existe é exploração do ser humano? Nunca haverá respeito ou honra. Enquanto houver exploração, seja ela, remunerada ou não, seja ela, voluntária ou não – respeitabilidade será uma palavra que não corresponderá com dignidade e muito menos dignidade com trabalho. Onde há dignidade quando o que é feito é aumentar a riqueza de um pequeno grupo? O trabalhador acaba com a saúde física e mental, construindo riqueza que jamais verá, porque o que lhe vem são as migalhas que caem das mesas dos grandes barões da indústria. E, ele, na esperança de uma ascensão social vai fazendo pequenas reservas, a fim de se tornar no futuro, um pequeno detentor de riqueza. O que não acontece por mais que se esforce. Acabando por se tornar dependente do trabalho escravizante. Assim, sua sina se escreve, tornando-se membro ativo desta grande massa falida, que vive dependente da remuneração que lhe é concedida. Vivendo mês após mês dependente do salário que a seus olhos é o merecido, quando, no entanto, poderia receber muito mais pelo trabalho realizado, caso soubesse o verdadeiro valor que suas atividades merecem. Olhando por outro prisma o clichê discutido – há dignidade sim, no trabalho feito pelas mãos do homem, onde o resultado do mesmo é explorado pelo próprio homem, onde os bens de consumo são usados em favor da subsistência e não para acúmulo de riquezas. O pedreiro que constrói com as próprias mãos sua casa, o agricultor que planta para subsistência sua e de seus familiares, o artesão que faz de sua arte o seu trabalho. Há quem dirá que este texto é retrogrado, e que o autor deseja voltar à idade média, pelo contrário, respeito a idéia de progresso. Mas, progresso do homem, progresso da humanidade, não essas cadeias deploráveis de exploração e consumismo a que estamos submetidos. Inconscientemente agimos para que a mesma se propague e se mantenha forte. Aceitamos as imposições, moldando-nos aos padrões de vida que o capitalismo dita. Seguimos as tendências tecnológicas a fim de demonstrar nosso poder de compra. E, assim estarmos inseridos num meio do qual sempre fizemos parte, mas sempre num patamar inferior ao desejado.

Flávio Offer

Comentários

  1. tekka5:47 PM

    Flavio

    todo poder à preguiça!

    http://www.focando.jor.br/2006/12/20/o-direito-a-preguica/

    bjs

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  2. Anônimo6:16 PM

    CONCORDO, SE GENGHIS KHAN E HITLER FOSSEM PREGUIÇOSOS
    MENOS GENTES SOFRERIAM!
    UM ABRAÇO

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