“Com as bênçãos do Poetinha”


De repente, apontou esperta, num trote deveras lento e desajeitado, dentro de seu traje “L’europe” e longas botas, num requinte inglês abrasileirado do interior mineiro dos arachás. Seu trajeto tinha um brilho exasperante que aniquilava qualquer dinossauro que, porventura, sobrevivera ao asteróide. Percorrera o rubro tapete que se estendia pela passarela entre a sonâmbula platéia e o altar verborrágico, onde dois “monstros sagrados” se sustentavam em seu andor de ouro polido e pés de barro amassado. Tendo a palavra por sua, aquele ser tsunâmico iniciou com elucubrações seu dispendioso culto de sacralização. Em cada verso de seu soneto, cantou maravilhosa paródia em exaltação de um amor antagônico, ininteligível à platéia, que boquiaberta admirava um céu de estrelas em que nada se comparava ao falso brilho das estrelas que piscavam rente ao chão. E, assim, cada verso voava como pluma num deserto solitário, sem ter aonde chegar, sem ter onde cair. Sem receptores que o exaltassem na essência. Cada ouvido que, porventura, apurasse as palavras, compreenderia logo que se tratava de uma desavergonhada cópia como outras várias da fidelidade cantada por outro poeta, embora, de bom grado, aquele ser tragicômico encerrasse a falácia pedindo as bênçãos de seu deus em desuso, ou melhor, pedindo as bênçãos por seu abuso. Sob aplausos, não sei se ao discurso, ou ao pedido de bênçãos a “Vinícius”, desceu do altar no mesmo trote deveras lento e desajeitado. A platéia sem nada entender a olhava admirada. Encerrando assim, mais um ato do teatro burguês-pseudo-intelectual, entre cantorias, danças orientais, sons desafinados de violino e sorteios de brindes que sustentam ainda mais a afirmativa: “pão e circo ao povo”, ou ainda, “circo e brindes ao povo”.

Comentários

  1. Legal o texto .. Isso acontece muito .. hehehe Beijins

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  2. "compreenderia logo que se tratava de uma desavergonhada cópia como outras várias da fidelidade cantada por outro poeta"
    Interessante essa parte .. É muito difícil escrever sobre algo novo .. Quanto versões devem existir ao se falar sobre o amor .. Todos falam sobre o amor, porém com uma linguagem diferente .. hehehe Beijins e visite o meu blogger ..

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  3. cássio amaral9:11 PM

    Camarada,

    Boa a sua crítica e bom escrito.

    Abração.

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  4. Tenho a impressão de ter assistido a esse espetáculo da reação intelectual, plagiando pela milésima vez o pobre do poetinha - que certamente está bêbado demais para ter percibido a cagada que fizeram em cima de seu soneto.

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