De onde vem a loucura

O que mais me fascinava era a pressa agonizante dos passantes. Olhava cada rosto, cada olhar esfacelado, cada face carregada de mágoas ou preocupações nada tangíveis. Tinha gosto e desprezo ao mesmo tempo. Sentia necessidade de ver os olhos fundos de eminentes lágrimas, a corrosão dos anos na pele alheia que revelavam os janeiros passados e o desespero infundado de um futuro inexistente. Os passantes eram como espelhos. Espectros indesejados que caminhavam taciturnos por calçadas imaginárias. Todos na distância do pensamento absorto que me carregava de tempo em tempo, tirando-me da realidade lacerante e, jogando-me num abismo impreciso entre a memória do que é e do que não é. E, naquele instante, eu não era.

De longe observava a figura estranha de um homem que caminhava pelo centro da avenida atrapalhando o trânsito. Homem já vencido pelos anos, longa barba branca e cabelos despenteados, olhar misterioso. Trazia na mão uma espécie de cruz e no pescoço inúmeros rosários. Seus gritos ecoavam como revelações apocalípticas – “o fim do mundo está próximo” e ainda, “a besta está entre nós”. Ninguém deu atenção à voz do beato que caminhava lentamente, os passos de quem já viveu o bastante e espera apenas o momento de retornar ao paraíso sagrado.

Permaneci sentado em meu trono de isolamento observando os passantes. Tentava imaginar os pensamentos através dos traços que as faces exibiam. Imaginava quem seria o próximo a revelar-se louco, deixando vir a tona a verdadeira face de seus sentimentos e os pensamentos que tristemente os aniquilam, impedindo de serem eles mesmos. Esperava um grito de revolta. Alguém que olhasse para mim e me dissesse - “eu sei quem você é, e sei bem o que você quer” – mas não aconteceu nada disso e eu fui obrigado a me contentar com meu último gole de conhaque e o sorriso da garçonete que prometera me encontrar quando estivesse sóbrio. Paguei a conta e fui embora. Outros bares me esperavam. Outros loucos me esperavam.
Enquanto caminhava pensei nos andarilhos. Estes maltrapilhos que andam pelo mundo afora. Muitos, eram homens cheios de esperança que fugiram da fome e da loucura da seca. E, na cidade grande não encontraram o consolo para suas almas, e não podendo voltar, vivem vagando, mendigando pão, respeito e dignidade. Mendigando o que mendigavam. Mendigando sempre. Até um espaço no céu.

A imagem do beato me atormentava. Seus gritos me atormentavam. “...a besta está entre nós...”. “O que seria a besta?” – imaginei. "Seriam os homens circunspetos? Seriam outros? Seria a televisão divulgando notícias frescas sobre um ditador que caia? Seria o mundo torcendo pela morte alheia? Seriam as catástrofes que dissipam vidas? Seria o presidente da ONU?" Não saberia dizer... embora soubesse que a besta estava solta. Parei um pouco com o peito arquejando. E, a besta tomou conta de mim. Quis rir, quis chorar, quis matar o presidente dos EUA. Quis beijar minha namorada virtual que há tempos não se conecta a internet. Numa ânsia de vômito senti o gosto amargo de meu fígado que reclamava o excesso de bebida alcoólica ingerida. A besta permanecia em minha cabeça. Seria eu, a besta? Não... pouco provável, eu não fazia mal sequer a uma formiga. Enquanto muitos homens por aí ordenam matanças e genocídios.

Parei numa esquina tentando pensar. Vinham apenas despropósitos, quimeras, esquecimentos. Nenhuma nuvem branda sobre minha cabeça. Nenhuma brisa leve. Nada. Um deserto imenso invadiu o espaço de minha memória, perdi a decência e, devaneando fui ao inferno de Rimbaud, em todos os meus vícios e loucuras, em meus sacrilégios e descomposturas. Bebi o veneno que o beato espalhara pela avenida. Senti-me besta. Fiz-me besta. Senti-me carrasco do último enforcamento exibido na TV. Senti-me o próprio enforcado. Vi-me inquisidor. Vi-me mestre sem discípulos. Vi-me diabo. Caminhei alguns passos rumo ao abismo. Reencontrando-me nas palavras de redenção de um amigo que me convidou para acompanhá-lo em uma dose de qualquer coisa. As imagens de um homem morto não me saíram da cabeça. O tribunal do júri dera a sentença de morte por enforcamento, em hora e local não divulgado. O mundo numa ânsia de ver uma execução brindava aquela morte esperada. Sorriam um sorriso de loucura e alívio. E, mais um ditador caiu. Quem será o próximo enforcado? Seria a besta do apocalipse? Seria o presidente dos EUA ou da Rússia? Mundo injusto. Eu não pude presenciar a execução. Estava dormindo, sonhando um mundo de igualdade.

Comentários

  1. eis um texto insanamente lúcido...

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  2. É aí, Flávio, pois é, estao aanunciando pelas ruas a derrocada dos ditadores, mortos por outros ditadores - descer ao inferno, com Rimbaud e experimentar o veneno, se desconstruir em tudo e todos, ad infinitum. Gostei do texto, camarada! Até mais!

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  3. mui estupendos?
    ;)

    a loucura é sábia...

    e tenho a leve impressão de que a besta é a massificação da cultura...

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  4. Flávio, um texto realmente inquietante de um mundo inquieto.
    Você sintetizou na veia os nossos sentimentos com relação ao Iraquebush em que vivenciamos/vivemos.

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  5. Nestas horas é melhor sonhar ;)

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  6. É meu irmão, também ando com um travo na garganta. As bestas do apocalipse se proliferam. A Medusa de nossos dias.

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  7. Excelente o texto.
    Parabéns!!!

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  8. Sem tempo de comentar o texto agora...
    Mas com vontade de estabelecer contato via blog contigo!

    Dá uma olhada no meu.

    Um abraço;

    Fabiano

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  9. Muito bom seu texto!
    Pena que estamos na direção errada pra construir um mundo de igualdade...
    :**

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  10. Renato1:39 PM

    bom dimais... deu pra refletir como está o mundo hj em dia, um mundo onde uma morte de um ditador produz alegria para algumas pessoas. ironia. como pode a morte trazer alegria? será q as coisas retroagiram? em que século a gnt tá mesmo??

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